Brasil não é um país preconceituoso

E a frase acima é uma das maiores falácias da história brasileira. A ideia de que, diferentemente de outros países, o Brasil não discrimina negros, homossexuais e mulheres acaba reforçando o preconceito e a hipocrisia da sociedade brasileira. E você, qual seu preconceito?

Diverso: é assim que o Brasil se vê, mas não é assim que tolera

Nos Estados Unidos, Klu Klux Klan. Na Europa, a histórica perseguição de judeus e agora mulçumanos e imigrantes. Em países árabes, apedrejamento de homossexuais e burcas. Quando comparamos esse cenário triste com o Brasil, a primeira impressão é de que somos um país de uma alegre mistura, onde negros e brancos andam de mãos dadas, diferenças religiosas não são um problema, a mulher é respeitada e a comunidade LGBT tem toda liberdade de expressão.

Acorde.

A discriminação no Brasil não é como nos outros países. Não é institucionalizada, não é declarada. Ela é como um veneno suave, que a sociedade brasileira vai engolindo em doses homeopáticas, mas letais.

Gostamos de nos ver como um país da diversidade, da liberdade, da miscigenação e do respeito. A verdade é que empurramos para baixo do tapete o preconceito. Não assumirmos que temos uma história de discriminação, desrespeito, morte e escravidão, principalmente porque essas ideias já estão enraizadas no imaginário e na cultura.

Ódio e intolerância explícitos: é mais fácil perceber e reprimir manifestações racistas como Klu Klux Klan. Mas e o olhar torto no ônibus? E se sua filha namorar um negro? E se o seu filho for gay?

Não temos grupos como Klu Klux Klan, mas olhamos torto quando têm um negro do nosso lado no ônibus. Falando em olhar torto, e quando a madame despreza completamente a empregada doméstica que pegou o elevador social? E as piadinhas machistas? Que todo mundo ri, homem e mulher. Hahaha só rindo para não chorar.

Faz parte da nossa hipocrisia achar que uma piadinha não tem problema algum, que “não tenho nenhum problema com negros, mas” não é um discurso racista.  Como disse Matheus Pichonelli, em artigo publicado na Carta Capital deste mês, nessas pequenas construções de discurso se sustentam argumentos homofóbicos, racistas, machistas e qualquer outro tipo de discriminação. É fácil identificar as estratégias argumentativas desse tipo de discurso, enumerei algumas abaixo:

a) Negação – Você nega qualquer tipo de preconceito. Em seguida usa alguma condição ou “porém” para legitimar qualquer atitude discriminatória. É o exemplo usado no artigo da Carta Capital. Também podemos ver em: “Não tenho nada contra gays, desde que não cheguem perto do meu filho”.

b) Igualdade - Você usa o princípio da igualdade para anular movimentos sociais. A questão é que os movimentos existem justamente para que aquele grupo de pessoas tenha os mesmos direitos, oportunidades e respeito que as pessoas de um grupo hegemônico. É um equívoco exigir direitos para um grupo que JÁ tem historicamente os seus direitos, oportunidades e respeito. Mesma coisa quando acha que grupos anteriormente desfavorecidos são agora “privilegiados” com novas leis. Exemplo: “Se existe Dia da Mulher, tem que ter do homem” ou “Se existe Orgulho Gay, tem que ter Orgulho Hétero”.

c) Liberdade- Não só quando o assunto é discriminação esse conceito aparece.Ao evocar a liberdade de expressão para sustentar um argumento preconceituoso, o interlocutor peca por coloca-lo como um valor absoluto acima de todos os outros. Acima do direito de expressão existem os direitos humanos e, principalmente, a justiça. O clichezão ainda é válido: “Minha liberdade acaba onde a do outro termina”. Minha liberdade de falar o que eu penso não é maior do que o direito do outro de ser respeitado.

d) Graça – É o que os pseudo-humoristas brasileiros evocam quando contam suas piadinhas racistas, homofóbicas e preconceituosas. Se é pra fazer rir, vale tudo, até desrespeitar as pessoas. Sabe o que é pior? Não tem graça. Maiores exemplos são os rapazes do CQC, que levam o humor retrógrado com maquiagem de moderninhos.

Humor e liberdade são alguns dos valores evocados para legitimar discursos machistas, como no caso da Lola e do Marcelo Tas.

e)Inversão - Lembra um pouco a técnica da igualdade. É quando inverte-se o discurso, transformando a vítima em agressor. Por exemplo, quando dizem que uma mulher foi estuprada por culpa dela, afinal, quem mandou usar saia curtinha? Outro absurdo semelhante: os negros são mais racistas que eu, porque ficam se colocando como inferiores e criando dias como “Orgulho Negro”. Esse pensamento é completamente ilógico. Se fosse seguir esse mesmo raciocínio, então quando um ladrão assalta, a culpa não é dele, é da pessoa ou do banco que tem um objeto de valor. Quem comete a violência contra a mulher é o homem, portanto ele é o culpado.

A maioria dos brasileiros sabe que o preconceito é errado e que julgar o outro por algo que nunca vai te afetar (orientação sexual, gênero, cor, situação financeira NUNCA vai prejudicar uma pessoa) é totalmente irracional. Tanto que é por isso que muitos hipocritamente tentam disfarçar o preconceito com mil e um artifícios discursivos. Mas, como eu disse anteriormente, é uma coisa tão enraizada, é um cascão tão grosso nessa ferida, que é mais fácil colocar um band aid. Mas isso não resolve, só deixa latente a tensão. Um dia isso vai crescer e dar força para políticos oportunistas, grupos violentos e segregacionistas.

É preciso primeiro sermos sinceros com nós mesmos. Tenho preconceitos? Tenho, sei que é errado e vou tentar me modificar. Ainda fico chocada com beijo gay? Fico, mas tenho que me acostumar. Isso se chama autoeducação e é uma atitude que todo brasileiro deveria praticar. Por mais que nossa educação, o que vemos na TV ou na igreja e tudo mais nos diga que não é errado desconfiar de um negro em um ônibus ou rir de gays, nós temos que fazer esse esforço.

Falando em igreja, se você discriminar por motivos religiosos, você é o mais paradoxal possível. Nenhuma religião do mundo prega originalmente o ódio contra outros seres humanos. Quem pensa assim é um infeliz que acha que todo mundo tem que ser do jeito que ele acha certo. Quer ser religioso?Volte-se contra os ladrões, os mentirosos, os assassinos, os pedófilos, estupradores. Volte-se contra o seu próprio ódio, rancor, ciúmes, inveja. É mais difícil, mas muito mais sincero e justo. É muito fácil odiar o outro, principalmente sem motivo.Se termos que ter orgulho de alguma coisa, não é da nossa etnia, orientação sexual, gênero ou qualquer coisa parecida. É do nosso caráter. Se temos que ter vergonha de alguma coisa, não é da nossa etnia, orientação sexual, gênero ou qualquer coisa parecido. É do nosso preconceito.

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4 pensamentos sobre “Brasil não é um país preconceituoso

  1. Santos disse:

    Interessante matéria.

    Mas creio que estamos diante de um texto de falso silogismo, quando uma das premissas originais é falsa o resultado obrigatoriamente também é falso.

    O texto parte do princípio de que a frase corrente é que o “Brasil não é um país preconceituoso”, quando na verdade a premissa/polêmica correta, e que se escuta diariamente nas ruas das bocas dos preconceituosos é: “O Brasil não é um país racista”.

    Nem os preconceituosos teriam a petulância, ou ingenuidade, de se declarar “não preconceituosos”, seria óbvio demais.

    Todos os seres pensantes tem algum grau de preconceito (irracional), ou sentimento de rejeição contra alguma coisa, ou ser vivo ( contra cobras, o escuro, pessoas com deficiencia chocante, contra plantas que tem espinhos grandes, etc). Em umas pessoas essa rejeição é mínima em outras é extrema.

    O que de fato nos caracteriza não é o grau de preconceito, já que este é inerente, o que de fato nos caracteriza é o quanto nos policiamos e efetivamente conseguimos mitigar do nosso preconceito trazendo-o para o campo do racional.

    Algumas pessoas tem esta leitura e fazem o dever de casa mitigando seus preconceitos, outras simplesmente são totalmente permissivas com seus preconceitos, não tem o menor pudor, ou culpa, de exercê-los, contra essas últimas infelizmente não há muito o que fazer já que elas tem um certo nível de sociopatia e não se importam com os sentimentos das outras pessoas.

    Do ponto de vista social a única maneira de “lidar” com o problema seria com educação escolar e com leis anti preconceito, lembrando sempre que esta última tem alcance limitado porque não incute de fato mudança de comportamento, apenas enquadra o infrator que não mudará de opinião seja o que o Estado faça, a exemplo da Alemanha atual em relação aos principios nazistas, tão vivos quantos na época da guerra.

    Preconceituoso, portanto, todos o são seja em que grau for e em relação ao o que for, é uma resposta inconsciente e exagerada do nosso sistema de proteção pessoal que detecta o “diferente” como “perigo”. O lado bom é que dá sim para se avançar nesta questão e mitigar o lado irracional trazendo-o para o lado racional, minorando a quase nada este sentimento tão danoso aos outros e a nós mesmos.

    Parabéns pela matéria e por trazer a tona o assunto.

    Santos/da Bolívia

  2. Caroline Soares disse:

    Olá Santos, muito obrigada por ler o texto – não considero matéria porque só tem opiniões aqui, sem dados ou outras informações – e participar da discussão. Quanto à sua observação, não usei o termo racista porque eu restringiria o assunto à discriminação dos negros e, na minha concepção, esse não é o único problema de intolerância e conservadorismo que o Brasil finge não ter. Com preconceito eu inclui o machismo, homofobia, racismo e até discriminação com pessoas com menos condições financeiras, de profissões com menos status. Me perdoe se eu usei mal a palavra, mas foi a única que me ocorreu para abranger todas essas manifestações de intolerância.

    Obrigada apareça sempre :)

  3. Enio disse:

    Muito bom o seu texto, realmente gostei.

    Sempre pensei, o preconceito é realmente algo impossível de não sentir, porque como o Santos falou, é um sistema de auto-defesa do desconhecido, do diferente, então todos nós temos o preconceito, seja lá com o que for (raça, religião, sexualidade, posição social e etc.), mas o importante é você passar por cima dele, não deixar esse sentimento primitivo tomar o controle, assim ele vai morrendo aos poucos.

    Parabéns Caroline Soares pelo ótimo texto e parabéns para você também Santos pela ótima análise feita sobre o texto.

  4. Olá Enio, agradeço seu comentário aqui. Nós mudamos o blog de lugar, se quiser conferir mais textos, visite: http://www.jornalsanitario.com

    Abraços

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