A (in)justiça nas pequenas coisas.

Muitas das vezes, as pessoas apenas reparam nas injustiças divulgadas pela midía.São os salários baixos, o preconceito declarado e por ai vai.Com isso, os olhares sempre se esquecem das pequenas, mas não menos importantes, injustiças cometidas dia-a-dia.

animais_luxo

Um exemplo que eu andei reparando parece insignificante, mas revela a falta de empatia e até, de certa forma, uma ignorância.A grande maioria dos apartamentos-classe-média construídos na cidade de Belém e que possuem os chamados “banheiro para os empregados” não colocam chuveirinhos,duchinhas ou bidês.Alguém pensaria : “E que isso importa?É caro para a empresa fazer isso”.Bom, as empresas construtoras compram tudo das fábricas e, portanto, o custo é muito menor.Para instalar um desses, gasta-se no máximo 10 reais.Então, por que não colocar?

a. As construtoras não atentam para esse fato.

b. Aquela mentalidade de que “pobre” e “empregado” não precisa desse tipo de “luxo”.

c.As construtoras querem economizar cada centavo( se bem que, para fazer jardins, piscinas, churrasqueiras, ninguém economiza).

Talvez seja um desses fatores, ou a possível combinação entre eles.De qualquer forma, revela um enorme preconceito por parte das construtoras, mas esse problema não para por aí.

Tempos atrás, em uma discussão durante uma reunião de condominios do meu prédio, uma mulher reclamou:

– Escuta aqui, por que meu cachorro não pode andar no elevador social?Ontem eu vi um entregador de gás todo fedorento andando nele!

Por incrível que pareça, a mulher foi capaz de olhar para outros seres humanos como se fossem animais, aliás, pior do que animais.

Outro caso, recente, foi um relato de uma colega do meu curso na Universidade.Ela, além desse curso, conseguiu uma bolsa do ProUni numa das mais caras Universidades particulares de Belém.Ela explicou que a vaga estava quatro anos parada, pois ninguém conseguia a pontuação suficiente.Conseguindo, com muito esforço, de acordo com ela, pois só tinha lápis e papel no cursinho que ganhou bolsa, ela teve uma surpresa ao chegar na sala de aula.Todos os alunos já estavam reunidos em grupos para a execução de um trabalho:

– Gente, quem quer nossa colega no grupo?- perguntou a professora.

O silêncio é seguido por uma tensão no ar, e a pergunta é repetida cerca três vezes.A moça, então, reage:

-Não, professora.Pode deixar, eu faço o trabalho sozinha!

A professora insiste e alega que como alunos do curso de psicologia, eles não deveriam ser egoístas.Assim, um aluno timidamente aceita a moça no grupo.

A questão até aqui seria simples.No entanto, os alunos começam a conversar sobre cotistas e bolsistas, sabendo que a moça entrou através do segundo.Assim, um dos alunos solta:

– Meus pais pagam $$$, para vir um preto pobre e burro, sem senso crítico ficar estudando com meu dinheiro!

Os comentários seguem a mesma linha da blasfêmia acima.Agredida, a moça tenta revidar:

– Olha, eu sou pobre mesmo e não tenho vergonha disso.Eu fui a única que, em quatro anos, conseguiu a pontuação para conseguir essa bolsa.Não foi fazendo um prova boba e fácil, como você pensa.Outra coisa, você não paga meus estudos.O governo federal tira parte dos impostos da U*, então seu dinheiro é investido nos seus estudos, tudo depende de você.Não concordo com sua visão de que pobre,negro não tenha senso crítico.Nós podemos não ter acesso a toda educação do mundo, mas sabemos perceber tudo que nos cerca.

Não citei o nome dela, nem da universidade por questões éticas.Os diálogos acima não estão exatamente como foi colocado, porque foi baseado no relato dela.

Assim, percebemos que a violência não está só nos jornais.Ela está no nosso cotidiano.Atentem agora, queridos leitores, àqueles olhares de discriminação.Atentem para o livro da vida e procurem sempre ler nas entrelinhas.

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8 pensamentos sobre “A (in)justiça nas pequenas coisas.

  1. O nome da universidade tá sim… embora, pra quem mora aqui, nem precisasse dizer o nome.
    Não existe preconceito no Brasil? Tá!
    A questão é termos ciência de que a coisa existe, não empurrar pra debaixo do tapete. Mas também, há de se considerar, que isso parte de posturas individuais. Se cada um fizer seu papel ético e humano, a coisa muda.

  2. Acauã Pyatã disse:

    O que justiça? o que é injustiça? O senso de ambas transpõe o sentido da palavra, ou até mesmo a simples concepção moral do que deve ser…

    Esse não omissos nem isolados, mas freqüentes fatos referidos neste artigo são constantemente presenciados durante o dia a dia, e vou fazer uma “amarração” no teu artigo com mais um ao qual irei me referir.

    Sabe quando você vai ao shopping de havaianas, bermuda caseira e uma blusa comum? Repare que ao entrar em uma loja, tipo Wave por exemplo, o olhar voltado a sua pessoa é diferenciado, e geralmente a vendedora que te aborda, faz a abordagem com aquelas caras não muito agradáveis, e a gerente que fica no balcão não desgruda o olho de você… agora vai dar uma de “cabocão” (rsrsrs), porque é isso que as pessoas aqui são, te impiriquita todo pra ir no shipping só comprar uma camisa.. ai você é o bacana (risos).

    As pessoas mutias vezes são idiotas, fúteis.. alias, o que gera tudo isso se chama FUTILIDADE, ou seja, a valorização do bem material e do trivial em detrimento da dignidade da figura humana. O comentário sofrido pela colega no ambiente acadêmico, além de ser assédio moral, ao meu ver e se fosse comigo a situação, no minimo me daria uma expulsão da instituição, pois não há meias palavras, além de chamar o agressor de tudo, menos de santo e digno, se ele ainda retrucasse, ele teria uma carona para o metropolitano que fica logo do lado.

    A questão em relação a (in)justiça social é muito mais profunda do que nossa simples mente humana pode imaginar, pois ela é a culminação de um longo processo educacional e metódico que instrui as pessoas a agirem e serem assim, pela mídia, meios de comunicação, setores específicos da sociedade… MAS PORQUE JOSÉ???? POR QUEEEEE????

    Simples… se eu tenho uma pessoa de baixo poder aquisitivo a exemplo, que vê outras pessoas de poder aquisitivo maior, e de certa forma pretende transitar entre elas, essa pessoa psicologicamente se verá forçada pelo meio e pelas circunstancias a ter que adquirir itens que possibilitem a mesma estar a “nível”, digamos assim, mas nível de que? rsrsrs mas retomando… a nível de estar transitando no meio de X grupo de pessoas… o que gera consumo, tudo baseado não na figura da dignidade humana, mas no puro espirito do consumismo e geração de mercado.

    Eu várias vezes fico me perguntando como algumas pessoas são aceitas no meio de nosso convívio social simplesmente porque tem dinheiro. Se você vê um pai de famílias que tenta furtar um pacote de leite em um supermercado para dar ao filho, esse homem é processado pelo estado e sofrera as sanções da lei, e sempre será visto como um famigerado bandido, ao passo que o criminoso de terno e gravata, isso mesmo aquele que desvia milhões de dinheiro que é MEU E TEU, se chega em um local, apos todo o escândalo, continuara sendo tratado com a maior dignidade possível, porque? por que tem MONEYYYYYYY…

    Eu sinceramente acho isso tudo uma grande borestia… o tema do artigo da colega é simplesmente um pequeno vislumbre do reflexo de uma mãe que pare seus filhos, selecionando apenas os que quer, não por necessidade, mas por puro capricho, abandonando os demais, a grande maioria, verdadeiros abortos sociais, uma grande mãe que se prostitui e vende por dinheiro, uma mãe que se esconde atrás de uma mascara, para esconder toda a vergonha de sua hipocrisia, e empurra sempre a sujeira para de baixo do tapete… essa mãe é a sociedade, que veste um vestido belo, mas que é como uma bonita porta de madeira, bonita e envernizada por fora, mas corroída pelos cupins por dentro, abalada pelo câncer do cinismo, da hipocrisia, da falta de vergonha… uma mãe, que educa seus filhos a obedecerem valores sim.. mas VALORES FALIDOS, forçando-os a viverem a sombra daquilo que poderiam ser, forçando-os a cada vez menos serem homens e mulheres, mais sim engrenagens de uma grande maquina social, que durante todas as longas madrugadas de nossa história toca uma musica, que todos tem que dançar de acordo com o ritmo da maquina, e os que não dançam? São marginalizados… são underground, mas estes foram também adotados por uma mãe ilegitima, mas forte, a mãe resistência!

    Só a uma forma de combater a hipocrisia e a (in)justiça, que é abraçar a resistência e fluir na liberdade da força do pensamento, pois é praticamente e somente através dessa força, força que a sociedade não tem controle total, que podemos ser livres e resistir, pois muda-se a forma do pensamento, quando o pensamento muda ele muda a gente, e a mudança do mundo esta na mudança da mente, e quando o mundo muda.. ninguém manda nem segura agente!

  3. Acauã Pyatã disse:

    Ah sim.. viva chê! hehehe

  4. Bruh. disse:

    Concordo com você. Todos falam sobre as injustiças que passam todos os dias nos jornais. Mas poucos prestam atenção nas injustiças dessas pequenas coisas.
    A mulher comparar uma pessoa com um animal, é o cúmulo. Um entregar de gás fedorento? O que eu pensei, quando li o seu post, foi em um entregador de gás, trabalhando duro para sustentar a si mesmo e a sua família – uma esposa, filhos, talvez. Uma pessoa que encontrou em um trabalho digno, uma solução para ganhar dinheiro sem roubar, sem matar, sem assaltar.
    Gostei do seu post! Já tinha visitado esse blog antes, mas nunca tinha deixado um comentário. Voltarei aqui sempre! (: Estão – você e os outros autores – de parabéns!

  5. Caroline disse:

    Obrigada Claúdia, Acauã e Bruh pelos seus comentários e opinião!
    Voltem sempre!
    :*

  6. Luã Gabriel disse:

    Caroline, boa noite. Acho que deixei uma mensagem no seu orkut, todavia, caso tenha enviado para a pessoa errada, então gostaria de reproduzir a mesma mensagem aqui. Na verdade é um convite.

    Caroline, estamos organizando aqui no Pará o Movimento de Olho na Justiça, que tem por objetivo fiscalizar as ações dos poderes executivo, legislativo, judiciário e Ministério Público, bem como fortalecer e qualificar o controle social. Assim, no próximo dia 10/03 estaremos nos reunindo para discutir isto e gostaria de convidá-la para participar desse movimento em defesa da democracia e da cidadania plena.

    A reunião será dia 10/03, às 19h, no auditório do Sindicato dos Médicos do Pará (Rua Boaventura da Silva, 999 – entre Generalíssimo e 14 de Março). Até lá!

    Um beijo, um forte abraço e tenha uma ótima semana.

  7. Carol, esse é pra você!
    Você ganhou um selo para o seu blog. Dê uma olhada em http://marcosdotempo.blogspot.com/2009/03/mais-um-este-100-indescritivel.html

  8. pitocoviajante disse:

    Carol, gostei muito da temática abordada no post. Como semepre né!
    Achei um absurdo o comentário que você citou, feito pela mulher na reunião do eu prédio. E mais ainda, fico indignada com os alunos universitários que discriminam os estudantes do ProUni.
    Acho que qualquer pessoa tem o direito de ter seu animal de estimação, mas nada justifica tratar uma pessoa mal, seja ela um empregado, pobre, rico, mendigo.
    Um outro exemplo disso que você escreveu são as pessoas que vendem doces, canetas, etc, nos ônibus. Muitas pessoas simplesmente ignoram a pessoa que está lá, falando e oferecendo seu produto. Ninguém tem o direito de fazer isso! O vendedor é um ser humano e merece atenção. Não custa nada dar um sorriso e dizer: “Não, obrigado!”.

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