Academias : um fenômeno moderno

Se você ainda não está em uma, em pouco tempo sofrerá pressões cósmicas para estar.  De acordo com pesquisa realizada pela Secretaria de saúde de São Paulo, 76,6% dos jovens praticam algum exercício físico. A maioria vai para as academias, instalações com dúzias de aparelhos, instrutores e muita, muita sociologia.

Antes de tudo, é importante entender porque as academias surgiram. A historinha é bem conhecida: no passado, os humanos eram mais ativos e comiam alimentos mais saudáveis( caçavam e retiravam os alimentos diretamente da natureza). Com as facilidades da tecnologia, essa necessidade de se mover foi diminuindo, até que nós chegamos ao ponto de precisarmos de controles remotos para apertamos um botão a 1m de distância. A conclusão é que todos estamos tendendo para a obesidade. É aí que o sistema começa a falhar : existe todo um padrão de estética vivido pela cultura contemporânea. Esse padrão, por sua vez, sustenta uma lógica de consumo que produz também os controles remotos. Mas o sistema se auto-corrigiu. Como? Inventaram as academias.

Elas podem ser pequenas ou grandes, depende também do tamanho do seu bolso. A variedade de exercícios é imensa : ginástica, musculação e ainda vários subtipos de exercício que você não sabe do que se trata(gaping, por exemplo). Com as academias, você pode exibir uma barriga de tanquinho e usar o elevador ao mesmo tempo!

Dilemas do homem moderno : quanto mais tecnologia, mais gordo.

Aparelhos e fragmentação social

Vamos lá, a intenção até que é boa. Mas, se pararmos para observar, academias são espaços estranhos. Milhares de aparelhos com fios, cabos, puxadores, pesos, distribuídos em uma sala. Cada aparelho tem um nome bizarro ( reductor de medidas pró elemetion!) e tantas possibilidades de regulagem que ficamos perdidos.

Se não existissem instrutores, você poderia achar que isto é uma bicicleta ou um novo juicer da polishop.

Além de ser um espaço com vários aparelhos, as academias também possuem uma característica interessante : são uma representação física da fragmentação social. As pessoas circulam como se não não houvesse outra pessoa ao lado ( mesmo fenômeno em supermercados, shoppings ou outros espaços de concentração de massa). Cada indivíduo vive a academia como se ela fosse só dele. O resultado é de que dentro da massa de frequentadores, cada um é um elemento isolado, seguindo seu programa de exercícios e ignorando o restante. Apesar de todos estarem mutuamente se ignorando, todos também se esforçam para chamar alguma atenção. As mocinhas tentam encurtar a roupa de ginástica ( como sempre, tática instintiva feminina para a atração do macho dominante) , que já é, por natureza, apertada e curta. Os homens se esforçam para exibir seus biceps, triceps e quatriceps, usando regatas ou uma respiração forte no momento de levantar os pesos(uuunfff).

Andar e caçar

Já a ala da esteiras é muito mais esquizofrênica que a de musculação. As esteiras estão postas lado a lado, com televisores. Todos andam, correm e prestam atenção na televisão ( que está transmitindoalgum jogo de tênis que aconteceu há dois meses). Mesmo tão distantes e próximos ao mesmo tempo, os “esteiristas” se limitam a comentar ” ah, é nesse botão para aumentar a velocidade” . Os instrutores, por sua vez, tentam transformar o estranho movimento de andar e não sair do lugar em algo mais interessante : colocam música e instigam o aluno a ir cada vez mais rápido. A ideia é relembrar os velhos tempos de caçada, gravados na memória coletiva inconsciente. O “tuntz tuntz” das músicas remixadas lembra os tambores de rituais primitivos e estimulam a produção de adrenalina no corpo. Em pouco tempo, todos estão correndo, sentindo pulsar nas veias a emoção de caçar um servo. Essa mesma estratégia é usada em outros rituais modernos, como os de pré-acasalamento (baladas).

Mercado cresce

As academias vão acabar substituindo as padarias em questão de anos. O mercado cresce e os cursos de educação física estão ficando cada vez mais concorridos, sobretudo para estudantes de classe social mais baixa. A televisão e as revistas fazem uma pressão imensa sobre as pessoas, para que elas sejam bonitas, com músculos bem desenvolvidos e barrigas de tanquinho. O problema é que o objetivo aqui não é estar saudável, mas ficar “sarado” a qualquer preço.

As academias tem um grande potencial de nos livrar dos problemas atuais de saúde : obesidade, hipertensão e tantos outros causados pelo sedentarismo. No entanto, acabam criando uma cultura própria, que é  palco de exibicionismo, narcisismo e isolamento social. Essa cultura, por sua vez, é fruto de uma necessidade (quase obsessão) por um modelo de beleza definido pela indústria cultural. Se no futuro elas serão um espaço para uma boa saúde mental e física ou apenas um produto de uma sociedade esquizofrênica, só o tempo dirá.

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7 pensamentos sobre “Academias : um fenômeno moderno

  1. pitocoviajante disse:

    to feliz pelo JS ter voltado, kago! ótima postagem, como sempre…

  2. Caroline disse:

    Obrigada Pitoco! Volte sempre por aqui :*

  3. Allan Sanches disse:

    Sensacional, ótimo texto. =D

  4. Adorei!
    Sobre o verdadeiro objetivo das academias:
    “acabam criando uma cultura própria, que é palco de exibicionismo, narcisismo e isolamento social. (SOARES, 2009)”

    Estou sentindo a pressão dos cosmos já. O que eu faço, Deus?! Mas não cederei assim tão fácil, indústria cultural diabólica e sua babinha anestesiante! Não vou! NÃÃO!
    Até mais, Equipe Jornal Sanitário!
    Happy New Year!
    PedroHTM

  5. Jacqueline disse:

    olha bacana mesmo :)! uma nova forma de pensar sobre algo super haver com o nosso cotidiano! demais mesmo :)! vou ler seus outros textos, espero q sejam tão bons quanto estes :)! parabens mesmo (Y)

  6. Acauã Pyatã disse:

    Desde ja digo que fico muito feliz com o retorno do JS, estava com saudade de ler os textos super divertidos e de conceitos fortes que sempre foram apresentados neste espaço.

    Acerca do texto, acho importante lembrar que o fenômeno que causa essa necessidade pelo corpo esteticamente perfeito (de acordo com o que é ditado pelas grandes mídias) é apenas uma falácia da indústria cultural que tenta uniformizar com padrões as formas de pensar e agir das pessoas. Alguns entendem isto como uma tendência, outros como uma nova forma de se relacionar socialmente. Achei muito válidas as colocações feitas no texto, e muito importante a abordagem socio-cultural que está envolvida tanto no texto como no contexto do fato analisado, mas tão importante quanto é também sinalizar que embora seja um fator “macro”, na minha opinião pessoal ainda não seria o caso de ser observado como elemento de projeção a longo prazo, podendo até mesmo quem sabe fazer-se como modismo, somente o tempo dirá, afinal de contas academia é apenas uma das alternativas de pratica corporal.
    Atualmente embora esteja com este meu corpo obeso, antigamente tinha alternativas interessantes de me relacionar com meu corpo e a forma estética que me agrada ( praticando esportes como artes marciais, trilhas e outras praticas como exercícios calistênicos e corrida), por ver nas academias resultado comportamental nos adeptos que pouco me agrada, não sendo via de regra geral, estando neste momento me referindo a casos não tão específicos por haver excessões claro, e mesmo não pretendendo parecer preconceituoso, observo assim como da maioria dos meios de comunicação social (de massa) acabam por exercer função estagnativa e de uniformização social, tal qual também as academias executam tal papel, reforçando a falta de informação de seus frequentadores.
    Foi citado no artigo as meninas que tentam cada vez mais encurtar as roupas e os rapazes que tentam a todo custo exibir o desempenho de seus músculos… Tenho uma tese pessoal… a de que quanto mais se malha e faz crescer os músculos, mais se atrofia o cérebro (huahauhua)… e digo isso observando as prioridades e a forma com que tal meio acaba por influenciar os indivíduos que nele se insere… Só que isto é opinião pessoal… Embora o artigo não tenha dado essa abordagem eu me empolguei como sempre… huahauha

    Caroline.. muito bom o artigo! Parabéns pelo retorno! E publique mais artigos! Abraços!

  7. Caroline disse:

    Allan, Pedro e Jacqueline, obrigada pelo comentários e por participarem da discussão.Bom ano para vocês também! ;*
    Acauã, faltavam seus comentários por aqui de novo sushauhusa. Concordo em parte com o que você disse. Não acho que quanto maior o músculo menor o cerébro, mas, certamente um ambiente de supervalorização do físico pode desvalorizar a capacidade intelectual das pessoas. Só não acho que isso seja uma regra. Esse meu artigo, apesar do tom de brincadeira, foi uma crítica a esse sistema que as academias acabaram se submetendo : uma corrida desenfreada pelo corpo perfeito. Acredito que elas poderiam ser um espaço de busca e autoconhecimento corporal, uma tentativa de integração entre corpo e mente, em que o objetivo principal seria a saúde do indivíduo. Obrigada pelo comentário pertinente e continue seu blog também. Feliz ano novo ;*

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