A criação de mitos modernos

As dinâmicas culturais contemporâneas apropriam-se dos mitos por serem imagens arquetípicas, ou seja, presentes no inconsciente coletivo. No entanto, essas dinâmicas expandiram sua capacidade, criando novas imagens e mitos modernos. Essa expansão recria a realidade, fazendo com que muitos indivíduos percam a noção histórica desses processos culturais.

Um exemplo é o papai noel. De acordo com o blog Galo da Pan, o bom velhinho foi resultado de uma construção sobre a imagem de São Nicolau. Essa construção foi promovida pela marca coca-cola, que recriou o papai noel e foi responsável pela sua massificação. O mito do papai noel é tão fortemente reproduzido em filmes e propagandas que a sua imagem é mais presente que a de Jesus no Natal.

https://i2.wp.com/blogs.rockymountainnews.com/bridget/Ronald%20McDonald.jpg

Em uma cena do documentário Super Size Me ( Super Size Me – A dieta do palhaço, EUA, 2004),  Morgan Supolock apresenta para crianças imagens famosas na cultura ocidental . As crianças são questionadas e respondem que não sabem de quem se trata. Uma delas chega a “chutar” George W Bush. Supolock vira a foto e vemos a imagem de Jesus Cristo. Ao mostrar Ronald McDonald, personagem criado pela empresa de fast food McDonald’s, todas as crianças rapidamente o reconhecem. A estratégia de marketing empreendida pelo Mc Donalds para seduzir o público infantil tornou a imagem da marca tão popular que as pessoas desde cedo começam a perder a noção e o conhecimento de fatos históricos. Essas crianças não sabem quem é o presidente do próprio país, mas sabem quem é o personagem de uma rede de fast food.Da mesma forma, em uma pesquisa realizada no Reino Unido, uma em cada 20 crianças revelou uma total distorção e desconhecimento da Segunda Guerra Mundial. Muitas acharam que Auschwitz era um parque de diversões e (pasmem!) que Adolf Hitler foi técnico de futebol.

A ausência de uma verdadeira discussão do papel histórico está invertendo rapidamente os valores na sociedade. Numa visão pessimista, as próximas gerações provavelmente não entenderão quem foi Jesus e o que é Natal ou Páscoa. Não entenderão porque repetem comportamentos passados, porque esse conhecimento vai ter se perdido. O resultado é que os símbolos acabarão como imagens ocas, sem significado algum. Não se entenderá porque somos assim, simplesmente vai se reproduzir o discurso já existente. Sendo assim, o homem perderá aos poucos a própria razão do ser, questionamento filosófico básico, que a memória coletiva transformou em uma discussão ao longo da História. Voltaremos às nossas origens ou superaremos esse drama moderno?

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5 pensamentos sobre “A criação de mitos modernos

  1. Acauã Pyatã disse:

    Confesso que estou emocionado, pois o questionamento presente neste artigo nada mais é do que um sinalizador de como a indústria cultural motivada pelo capital acaba por impelir as pessoas cada vez mais a massificação de um consciente e eu coletivo, não de forma sadia, mas uniformizada de consciência.
    Percebo que a alguns anos, as gerações que vieram depois da minha (não sou velho, tenho apenas 22 anos, 23 agora em janeiro hehe), diferente de mim simplesmente não tem acesso a conteúdos regionais, desconhecendo grandemente fatos históricos e “porques” e “o que’s” do ambiente social em que se inserem. Os signos tradicionais e culturais que vão sendo sufocados por ditos signos “modernos” são apenas uma das consequências do processo ao qual estamos inseridos e presenciando. Nortar que jovens de cada vez menor idade estão mais habituais com o orkut, MSN, twitter e outros elementos do que com atividades que acabem envolvendo conhecimentos mais apurados acerca do que é de suas culturas acabou sendo algo tido como banal… Conheço crianças de 11 anos que tem uma rede social virtual mais vasta que a minha…
    A sociedade como um todo, independente de ser ocidental e oriental sofre processo de aculturação a medida que os tempos avançam, fenômeno que em meu entendimento torna-se inevitável e inversível, podendo agora até parecer um apocalíptico da cultura popular, mas se tiver que o ser, que seja, mas creio que não muito distante haverá duas possibilidades.. 1) A padronização da cultura com pequenos sinais do que fora outrora ou 2) Super valorização das culturas naturais, valorizando-se a diferença cultural. Alguns irão dizer que o segundo item hoje ocorre, ERRADO! Pois cada vez mais as novas gerações se tornam consumistas e necessitam de fazer parte do grupinho, que tem como quisito básico, ser consumista. Nos adultos sabemos muito bem o que é isto, afinal de contas para determinadas situações e pessoas geralmente vestimos melhores roupas ou usamos determinados produtos…

    O fato é… e agora josé? Ja que falamos ca causa e efeito, o que podemos fazer é lutar para manter vivos dentro de cada um de nós aquilo que nos torna especiais, o que somos e a diversidade… a influencia da indústria cultural é inevitável e não pode ser impedido, mas não significa que não possa ser combatido.. e a resistência começa aqui, quando compreendemos isso e nos tornamos cada dia menos cultuadores da cultura “McWorld” e nos apaixonamos pelo “índio” que temos dentro de cada um de nós…

    Vamos ouvir Walter Freitas heheh Abraços!

  2. Rodrigo E. disse:

    Legal, Caroline.
    Gosto das suas contribuições.

    Não creio que a indústria cultural irá tomar conta de tudo.
    Sempre existem os espaços de resistência cultural e vivência da realidade em todo o mundo, antes mesmo que teorizemos sobre estes aspectos, no entanto não são vendáveis por isso não são divulgados.

    É regra geral dessa indústria cultural vender e explorar imagens e mitos do inconsciente coletivo, como dito. Inclusive, isso hoje em dia é bem praticado em vários espaços do mundo e principalmente na Amazônia (com sotaque em inglês), com a própria figura do indígena e etc. Hoje temos os ecoprodutos e econegócios na Amazônia que aproveita a figura da natureza e do amazônida para vender, do mesmo modo que o McDonalds faz no imaginário coletivo, de forma que não agrega identidade nenhuma ao povo do mesmo modo e não garante sua autonomia sobre o território. E aí? Isso é Capitalismo Bonzinho, como alguns acreditam?

    Acredito que estamos num estágio bem avançado dessa Indústria Cultural*.

    *Indústria cultural (em alemão: Kulturindustrie) é um termo cunhado pelos filósofos e sociólogos alemães Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), membros da Escola de Frankfurt. O termo aparece no capítulo Kulturindustrie – Aufklärung als Massenbetrug na obra Dialektik der Aufklärung (em português: Dialética do Esclarecimento), de 1947.
    Neste capítulo os autores analisam a produção e a função da cultura no capitalismo. Os autores criaram o conceito de Indústria Cultural para definir a conversão da cultura em mercadoria. O conceito não se refere aos veículos (televisão, jornais, rádio…), mas ao uso dessas tecnologias por parte da classe dominante. A produção cultural e intelectual passa a ser guiada pela possibilidade de consumo mercadológico. (FONTE: WIKIPÉDIA)

  3. […] nosso tempo, é natural que tudo comece a perder o sentido (já falei sobre isso aqui e aqui) e isso também acontece com o Dia Internacional da Mulher, comemorado dia 8 de março […]

  4. Lala Melato disse:

    Muito legal o texto me ajudou muito!!! *-*

  5. Olá Lala, obrigada pela sua visita e comentário. Se quiser conferir mais textos, confira nosso novo site: http://www.jornalsanitario.com.

    Abraços

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