A mídia auratizadora dos cargos públicos

Todos os domingos o caderno Diário dos Concursos, do jornal Diário do Pará, é o mais disputado pelos leitores. Ora, será porque ele traz as oportunidades de emprego em cargos públicos para uma massa de desempregados sonhadores? Mas… esse cidadão infeliz com sua vidinha de miséria e tristeza busca desesperadamente mais o trabalho ou o salário que são apresentados na publicação? A pergunta não deve parecer tão óbvia, afinal de contas, qual pessoa quer ser maltratada por um funcionário público preguiçoso, arrogante e ambicioso?

É interessante notar a estratégia midiática de sempre privilegiar no lide do convencimento o salário e, exagerando um pouco, quase que se esquecendo de dizer o cargo e as suas especificações. Como substituto disso, fala o horário da prova, o valor da inscrição (sempre conseguem comparar seu ínfimo preço com o exorbitante salário a ser pago, forçando a relação “custo-benefício” para o paraíso), onde se preparar (publicidade dos cursos preparatórios) e “dicas”.

Os cargos públicos brasileiros são tão auratizados pela mídia que se tornam o objetivo mortal daquele pai de família que ganha a vidinha infeliz dentro dos ônibus vendendo suas “icekiss” e suas “jujubas-3por1real” ou mesmo do trabalhador de carteira assinada. Deturpam até os objetivos de carreira dos estudantes universitários que possuem um pouco do raro senso de humanidade de ajudar o próximo no que mais gosta de fazer. Percebam que não é dada a devida importância para os mestrados, doutorados e, num nível mais baixo, para os cursos de graduação e universidades. Criou-se um outro caminho: o do cargo público e suas maravilhas, sem a “baboseira” de sentar um banco de escola para incentivar a perda de tempo chamada “pesquisa científica”. O que importa mesmo é ser bem-sucedido, trabalhando para o Estado.

O glamuroso adjetivo concurseiro, apropriado pela mídia e usado como sinônimo de “lutador”, “vencedor”, “batalhador” inocula a idéia de prestígio e riqueza na cabeça dos menos preparados e nos que nunca sonharam em trabalhar para o Estado.

É muito mais pelo salário extremamente recompensador como de Procurador Federal que ultrapassa 15 mil reais que qualquer operário que vive com 3 salários mínimos, apaixonado pelo que faz, fica tentado em “entrar já” num cursinho preparatório e largar daquela vida de “cão” (subentendido midiático quando se trata dos cargos privados) para ser alguém na vida.

É justo prezar mais o salário que a função social a ser desempenhada? Já estamos acostumados a ouvir a expressão “Ah, ela se deu foi bem… passou no concurso e tá aí, num faz nada pra ter todo mês na conta 10 mil reais”? Será esse o futuro que queremos para o nosso país: pessoas movidas por cifras bancárias, que saltam de galho em galho como macacos materialistas procurando o maior salário pelo menor tempo de serviço? Um novo exército de marajás formou-se no horizonte brasileiro?

Vale ressaltar que a escravidão é crime. É incomum para uma pessoa que trabalha oito horas por dia e, como ainda estamos no sistema capitalista de produção, receber menos de R$ 510,00 (salário mínimo) gostar e conviver com isso toda a sua vida. Os problemas previdenciários ainda são realidade e não pretendo aqui desmerecer a carreira pública. “O trabalho dignifica o homem”, como diz Weber, e o que se nota é a crescente desvalorização da função social em prol de uma cultura do “salário”, do “ganhar mais e mais”.

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2 pensamentos sobre “A mídia auratizadora dos cargos públicos

  1. Anônimo disse:

    Realmente, eu tava lendo o Diário dos Concursos hoje mesmo. É de fato assustador ver como se criam vários mitos em torno do funcionalismo público, mitos que partem do marketing de cursinhos preparatórios, diga-se de passagem, ao ponto de até mesmo se perder de vista a função e o trabalho exercido em sí, como se o funcionalismo público e salários exorbitantes fossem um status antes de serem um emprego.
    Mas acho que o problema se resume a isso: publicidade da indústria de cursinhos. A coisa é tão forte que uma amiga minha, dia desses, estava brigando com a mãe por conta de o curso superior que ela escolheu ‘não ter concurso público’, nas palavras da mãe (a história me deixou duplamente puto por que o curso era da nossa área, publicidade e propaganda :P).
    Agora, acho complicada a questão de ‘carreiras utilitárias mecanicistas’ de um lado e ‘carreiras de pesquisa científicas e superiores’ de outro. Existe uma distorção quando um policial federal em início de carreira ganha o mesmo ou mais do que um pesquisador da área de tecnologia em topo de carreira, mas isso não se dá por conta de uma função burocrática ser superior a uma carreira de pesquisa, afinal, ao contrário do sugerido no texto, exitem pessoas em funções burocráticas com muito mais compromisso social do que pesquisadores renomados da área de humanas, por exemplo. Não nos enganemos: nem toda pessoa engajada dentro de uma universidade tem “senso de humanidade e quer ajudar ao próximo”. O dinheiro pode se tornar exageradamente sedutor em qualquer area.

    PS. Né querer ser chato não, mas me incomodaram certas ironias dentro do texto. Um preconceito social chato subentendido. O texto estaria muito bem, obrigado, sem elas #fail

  2. Uriel disse:

    O aí de cima foi meu, sempre esqueço dessa formalidades de nome e e-mail rs

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