Jornalismo ou apenas um rostinho bonito?

Até a primeira metade do século XX, o jornalista era um autor anônimo e o foco era a sua produção( audio ou escrita). Com o surgimento da televisão, a prioridade voltou-se para a imagem e o jornalismo adaptou-se a essa nova situação : agora era preciso mostrar, além do fato, os jornalistas e apresentadores. Como a tendência da televisão é transformar tudo em um grande espetáculo, o jornalismo televisivo acabou também absorvendo essa tendência. O resultado é de que o telejornalismo acabou em muitos casos priorizando a estética dos jornalistas em detrimento do real papel dos mesmos (transmitir a informação).
A partir daí, o curso de jornalismo acabou virando obrigatório no currículo de modelos, misses e atrizes. O inverso também ocorreu :a televisão exige um determinado padrão de beleza nos seus programas e jornais. Essa exigência, muitas das vezes,acaba sendo mais importante do que o conhecimento e competência profissional. O leitor pode argumentar agora que :
1- Eu já vejo muita coisa feia na minha vida. Todo dia eu acordo, vejo pessoas feias na rua, no trabalho, na academia, no dentista. Por que não ver gente bonita na TV? Não faz mal para ninguém.

Primeiro, quem te disse que essas pessoas são feias? O que é beleza? Segundo, o papel da TV é mostrar uma fantasia? Uma realidade maquiada? Se a maioria das pessoas é considerada “feia” ,segundo os padrões estéticos da indústria cultural, a TV deveria reproduzir feiúra, afinal, a comunicação deveria ser da sociedade para a sociedade. O que acontece é que ela distorce a realidade social, mostrando para a sociedade um reflexo falso de si. Não estou dizendo que a TV deva selecionar as pessoas feias, porque o erro continua persistindo : estamos colocando como prioridade um suposto julgamento estético, que não é o dever dos meios de comunicação. Esse julgamento estético é um emaranhado complexo de subjetividade coletiva, que acaba ficando restrito à opinião. Levando-se em consideração o conceito platônico de filodoxia(amor às próprias opiniões), opiniões são boas quando levam a uma discussão, e não quando são impostas como verdades absolutas.

2- Mas ser modelo, atriz ou miss não tem a ver com comunicação e jornalismo?

Em parte. Modelos,atrizes e misses podem ser excelentes jornalistas. A questão é que telejornalismo não é desfile de beleza. O essencial, nesse caso, não deveria ser a beleza das mesmas, mas a competência. Apesar do jornalismo ser uma linguagem que constantemente dialoga com as outras áreas, ele trabalha dentro de uma lógica diferente. É claro que ter experiência no teatro, por exemplo, pode ajudar a melhorar a comunicação, já que o teatro é uma forma de arte que prima pela expressividade do ator/atriz. Ter uma boa dicção e, o mais importante, se fazer entender são questões que as artes cênicas podem auxiliar na televisão ou rádio. Contudo, o teatro, assim como as demais artes, é uma cópia da “realidade”. Essa cópia permite todas as liberdades e intervenções, podendo ser puxada, repuxada, maquiada, retocada, questionada. O jornalismo, por outro lado, procura evitar ao máximo distorcer os fatos, pois não é uma obra de arte, mas a revelação de fatos concretos da “realidade”.

O blog Assessoria na pauta publicou um texto com uma imagem de uma entrevista na VEJA da apresentadora Daniela Albuquerque. Nessa entrevista, a esposa do dono da Rede TV! afirma que fez jornalismo por ler em uma embalagem do achocolatado Toddynho informações sobre o curso. Em seguida, ela também revela que ” tem tudo a ver com ser modelo”.

A afirmação de Daniela mostra como a aparência virou prioridade na TV, a ponto do ser jornalista se confundir com o ser modelo. Se observamos, muitas candidatas à Miss Brasil são formadas em jornalismo(se nunca reparou,comece a prestar atenção nos concursos que vem em 2010), como se o curso ajudasse o “rostinho bonito” a “se comunicar”. E, óbvio, misses precisam, além de seguir o padrão estético, saber responder algumas perguntinhas.

A partir desse contexto, um debate em torno do próprio curso de jornalismo deveria ser criado: esses cursos servem para ensinar as pessoas a “se comunicarem”? São tão concorridos porque muitas pessoas querem um diploma de ensino superior ou acreditam que o papel do repórter televisivo é igual ao da Gisele Büchen? As grandes redes de televisão estão certas ao priorizar a beleza dos seus profissionais? Deverá continuar sendo um pré requisito para todo aspirante à repórter/apresentador/âncora uma aparência segundo os padrões? Por que? O que a televisão e os outros meios devem transmitir : o que vemos ou o que queremos ver?Essas questões eu deixo para o leitor.

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2 pensamentos sobre “Jornalismo ou apenas um rostinho bonito?

  1. Acauã Pyatã disse:

    Poisé, poisé, poisé… aí está algo digno de nota dentro de nosso ramo de atuação profissional. O texto apontou de forma discreta um fator de relevância culminante para chegarmos ao “check Match” desta discussão (na minha opinião), e este sujeitinho se chama INDÚSTRIA CULTURAL.
    O interessante de dialogar acerca de comunicação, é perceber que ela acima de tudo é instrumento, meio e arauto que leva as mensagens dos “agentes” que promovem as tendências de tudo que é produzido e disposto pela indústria cultura, tão logo não se espera que um cheff de cozinha italiana em seu horário de almoço vá até o restaurante de outro cheff de culinária italiana comer lasanha! Ou seja, a comunicação também se torna meio e mensagem neste processo, a tal ponto de agregar e consumir todos os produtos que a mesma anuncia, produtos ideológicos, culturais, comportamentais e sociais!
    Alguém ai me diga onde viu em algum colégio, o estudante mais popular ser o mais estudioso e ético? Alguém aí me diga, onde um homem foi enaltecido em sua rodinha de amigos simplesmente porque não quis transar com uma garota na festa que só faltou rasgar as causas dele? Em lugar algum, logo a comunicação como transmissora e consumidora dos valores globais da indústria cultural, ou como gosto de chamar, da MOEDA SOCIAL, acaba a estender toda sua carga de idéias e influencias aos agentes que compreendem o meio da comunicação, entenda-se jornalistas, relações públicas, multimídias, cineastas, marketeiros e publicitários que o digam! Eu que o diga! E sinto isto na pele por fazer parte da fatia mais “maldita” da comunicação de massa! A publicidade e Marketing (contudo, no meio deles, mas não como um deles).
    Hoje vivemos em uma sociedade que constroi uma cultura do TER e não SER… se você TEM beleza e fama, você é o cara meu amigo(a), se você é o garoto “come come da estrela” do colégio, que bebe, é burro mas bonito, você é quase cultuado, porque? Simples, por que aquilo que as pessoas querem, é TER… e o TER está intimamente ligado ao CONSUMIR, ao passo de que SER… se você É inteligente, É ético e todos os outros É’s da vida, você apenas é, afinal não tem… e o SER (É), não é tão rentável e interessante para a indústria cultural do que o TER, e antes que alguém diga que se pode SER bonito(a)… eu digo que beleza apenas se tem… pois assim como qualquer outro produto de consumo que se TENHA, com o tempo se esgota, e “comprasse” um rostinho bonitinho novo, e a pessoa referida neste artigo que o diga, que por ser modelo, sabe que não muito tempo lhe resta (rsrsrs).

    Bom está é minha opinião… Gostei do artigo… o conteúdo deste blog tem estado cada vez mais paydégua… Abraços!

  2. Nilcéia Fraissat disse:

    Muito bom o artigo. Parece mais um desabafo do meu próprio coração. Como jornalista essa realidade me entristece. Hoje em dia o book fotográfico tem mais valor que o currículo!!! NIlcéia Fraissat

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