O que nos move é o vazio?

Talvez esta pareça uma percepção um tanto nietzschiana da vida. Ou até marxista. Isso porque abomino ambas formas de pensar. Mas, divaguemos…

Muitos de nós é o que é por causa do vazio existencial. Apesar de não perceber, a ideia de que sua vida tem começo e fim faz cada individuo ou grupo de indivíduos criar mecanismos que mascaram essa noção. Às vezes, o medo de que um dia você será apenas pó, esquecido e insignificante, faz com que você se jogue em uma busca frenética pela eternidade.

Uns lutam contra o processo natural de envelhecimento, que nada mais é do que um aviso à longo prazo de que o fim está vindo. Como a cultura da sociedade contemporânea ocidental enxerga o fim de uma maneira muito mais dramática, essa luta chega a ser patética : pessoas gastando milhões com plástica, botox, cremes anti-rugas e até câmaras para congelarem seus corpos no pós morte.

Outros querem permanecer vivos de forma inconsciente na biologia social : reproduzem-se para deixar o seu DNA para a posteridade. Outro dia vi um documentário chamado Anatomia do Sexo no Discovery Home&Health. Nele, uma cientista afirma que a razão da nossa existência é reproduzir indefinidamente, por questões evolutivas. Esse raciocínio é um ciclo vicioso : estamos aqui para fazer outros futuramente estarem para fazer outros…. (ok, parei, deu para entender).

De acordo com Nietzsche, é esse vazio que fez o homem inventar as religiões. Já segundo Marx, a classe dominante utilizou as mesmas para controlar o resto(trabalhadores). Discordo de ambos. Mas não discordo da existência(!) de um vazio em cada um de nós. E cada um de nós tenta compensar esse vazio de uma forma diferente. Uns com a  religião, outros com o suicídio.

As condições do suicídio são diferentes em cada época e lugar. Émile Durkheim classificou-os em altruístas,egoístas,fatalistas e anômicos. Independente dessa classificação, o motivo principal parece ser a razão de viver. Os dois primeiros, viver consigo mesmo e os dois últimos, viver em sociedade.

No entanto, suicídios não chegam a ser úteis para a sociedade. Diminuem a população, diminuem os consumidores etc etc. É por isso que a indústria cultural criou seu próprio mecanismo anti-suicida. Não que isso seja uma coisa ruim, mas é ineficaz. Essa indústria tenta criar “razões para viver” artificialmente, porque na nossa sociedade a maioria das pessoas se encontra em um estado de semi letargia pré suicida. Em outras palavras, por não encontrarem mais razão de viver (só não sabem disso), estão cristalizadas em um estado de estagnação e dormência filosófica. Basta um pequeno motivo para que uma pessoa “acorde”, olhe para os lados e não encontre nenhuma resposta. O desespero, pode leva-la a usar um dos artifícios citados nos parágrafos acima. Ou então, ao suicídio. Não é à toa que livros de auto ajuda pipocaram nas últimas décadas. As nossas filosofias não estão mais dando conta do vazio.É por isso que as “razões para viver” são inconscientemente absorvidas e compradas pelas pessoas:

1- Carpe Diem

O símbolo do carpe diem moderno.

Uma reciclagem do valor neoclássico. Na sociedade contemporânea, esse mito ganha uma nova conotação. A vida é curta. Fato. Então, como não há nada para fazer. Aproveite. Compre, transe, festeje, pule. Ignore tudo e apenas “curta” egoistamente sua vida. O conceito de aproveitar a vida está preso ao hedonismo materialista. Cedo ou tarde, essa ilusão enlatada cai e a crise começa.

2- DNA

É a ideia de que estamos aqui para perpetuar DNA. É propagado principalmente por cientistas, que enxergam as pessoas como células reprodutoras escravizadas pela condição evolutiva.

3- Fama

Imagem retirada do blog anti-fotologger.

Estar na memória coletiva é uma forma de ser sempre lembrado. Ou ao menos, por um tempo.

4- Sucesso e felicidade


Por mais que sejam condições momentâneas da existência humana, é o que mais as fórmulas de livros de auto ajuda prometem. O pior : esses livros criam falsos objetivos de vida. É óbvio que ninguém consegue se manter feliz pelo resto da vida.

Apenas citei alguns, mas provavelmente existem muito mais. A razão de ser é uma questão muito pessoal. No entanto,  a nossa sociedade ainda não definiu um objetivo comum. Por isso, os valores citados acima raramente se sustentam por muito tempo. Logo as pessoas entram em crise e não sabem porque. Logo as pessoas ficam deprimidas (doença do século XXI) e não sabem porque. Estamos todos doentes e sem rumo, só por não conseguirmos a resposta para a pergunta : Para que eu existo?

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4 pensamentos sobre “O que nos move é o vazio?

  1. Jacques disse:

    Este foi realmente um ótimo post.
    Cada vez mais a sociedade torna-se superficial e materialista, uma vez que muitas pessoas acham que o que vale é o “compro, logo existo.”
    E, depois de muito tempo de consumismo desenfreado, descobrem que de nada adiantou encherem a casa de trastes tecnológicos que “saíram de moda.”
    Acredito que a vida serve para ser vivida, e não para ser questionada.
    Até mais.

  2. […] ou seja, compra-se em excesso e sem parar, porque o vazio existencial não consegue ser preenchido (clique aqui e leia o texto O vazio nos move?). O resultado é o consumismo, consumo exagerado, que produz lixo e se desenvolve de forma desigual […]

  3. diego disse:

    vc colocou as razões do vazio, e até o que eles causam: a formação da religião (nietzsche), o dominio de uma classe (marx) e o olhar de emile que é justificativa: não enquadramento sociale e de si.E pra um ateu, q se sabe das artimanhas do capitalismo, como se livrar do vazio, e do pensamento em suicido? sem respostas.
    pra mim, que penso parecido, só o afeto, me move.
    mas é dificil.

  4. Anônimo disse:

    Olá Diego, agradecemos o seu comentário e participação no blog. O Jornal Sanitário se mudou do WordPress um mês atrás. Se quiser participar de outras discussões, visite: http://www.jornalsanitario.com

    Abs

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