Belém, tu não “foi” assim.

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Historicamente, a capital paraense possui uma influência portuguesa forte. Não só na arquitetura e genética, mas também na forma como o belenense fala.No processo de introdução da língua portuguesa na Amazônia, várias palavras próprias da cultura portuguesa e também certos elementos do sotaque foram absorvidos : merendeira,arredar, o chiado característico e uso do pronome “tu”.

No entanto, nas últimas décadas, com a expansão das redes de televisão de alcance nacional, a forma de se falar em Belém tem sofrido mudanças significativas. A transmissão de telejornais produzidos por redes do sudeste do país impôs uma nova dinâmica sociolinguística na capital.

É uma característica dos meios de comunicação a padronização dos sistemas culturais. Dessa forma, eles acabam definindo padrões de beleza, comportamento e também modo de falar. Na cidade de Belém, essa questão pode ser percebida quanto ao uso do “tu”, pronome da segunda pessoa no singular. O belenense originalmente usa o tu para se referir a outra pessoa, conjugando o verbo segundo a norma culta naturalmente.

Apesar disso, a população da cidade começou a absorver artificialemente a cultura midiática do sudeste, que considera o uso do “tu” vulgar e mal educado. O bem-educado usa o “você” e o ignorante acaba conjugando de forma equivocada. É essa a ideia preconceituosa e até incoerente que é difundida. Primeiramente, configura-se um preconceito linguístico, pois não existe base alguma para afirmar que determinada forma de falar é certa e outra é errada, se a comunicação ocorre. Segundo, deixando de lado a corrente de pensamento variacionista, o “tu” é originalmente próprio da língua culta. Quantos poemas o leitor conhece que utilizam o “você”?

Não quero, de forma alguma, criar uma “caça às bruxas” ao “você”. A questão está na noção de que as expressões, sotaque e forma de falar do centro-sul invadiram a imensa diversidade linguística do país(Belém é apenas um exemplo). O contato entre esses aspectos regionais é inevitável, mas, ao invés de substituir um em detrimento do outro, esse encontro deveria contribuir para o enriquecimento da língua portuguesa. A língua não é uma gramática velha e empoeirada, parada na estante da sala. É um eterno movimento, que corre de boca em boca, de pessoa em pessoa refletindo, essencialmente, as relações entre pessoas e o mundo.

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2 pensamentos sobre “Belém, tu não “foi” assim.

  1. Caroline, sou de São Paulo mas também não concordo com a imposição massiva da mídia do Sudeste para todo o país. Tanto os aspectos regionais quanto a variação linguística devem ser respeitados. Aqui erroneamente até em ambientes formais se usa ‘você’ como segunda pessoa.

    As gramáticas são uma discussão à parte, mas definitivamente não são língua, ao contrário do que tentar impor alguns intelectuais.

    http://napontadaslinguas.wordpress.com/

  2. Sophia disse:

    Moro há muitos anos em Maceió e, literalmente, fere meus ouvidos quando ouço a forma como eles usam o “tu” por aqui ‘tu foi’ ‘tu falou’ ‘eu compro pra tu’ e por aí vai… e como é, realmente, difícil usar corretamente esse pronome eu não vejo mal algum em usar o “você”. Sinceramente, sou do norte e nunca neguei minhas origens, amo ser do norte e de Belém do Pará, acho o nosso sotaque o mais natural e o mais bonito de se ouvir (sem bairrismo!), mas sempre achei o ‘tu’ muito forte para ser usado com quem não faz parte do nosso cotidiano e geralmente, em Belém mesmo, eu o ocultava quando falava com desconhecidos ou trocava por ‘você’, assim como eu achava grosseiro alguém apresentar sua esposa como ‘minha mulher’ e não como ‘minha esposa’ (certa vez, no meu local de trabalho chegou um casal carioca e o senhor apresentou sua esposa, por duas vezes, como ‘minha mulher’ e eu me sentindo incomodada insistia em dizer ‘sua esposa’ e eles curiosos falaram: “por aqui vocês não gostam que se chame de ‘mulher’ para a esposa, né?aí, expliquei que chamando de ‘mulher’ dava a impressão de ser qualquer coisa menos a esposa. Acho ‘tu’ um pronome muito íntimo e algo íntimo não é para ser partilhado com todos, acaba passando uma impressão de ‘pessoa folgada querendo ser ‘chegada’ de alguém no instante em que a conhece’. Usamos com parêntes, amigos e conhecidos. Estive em Belém dois anos atrás e, francamente, não senti essa diferença não!. O ser humano assim como manipula também é um ser manipulado, ele precisa se sentir fazendo parte de algo maior, de um todo, isso é algo incontestável, e como surge liderança onde não há nenhuma foi natural que alguma parte do Brasil se sobressaisse e ditasse as regras para o resto do país e isso se deu com os sudestinos. Acho natural as outras regiões incorporarem alguns jeitos e trejeitos de quem está comandando sem com isso perderem seu linguajar característico, suas origens. Isso só faz aumentar a consciência de coletivo, de pátria família “somos diferentes mas o comum nos faz iguais, uma unidade só”. Ninguém muda ninguém, só se ‘muda’ alguém quando ela própria se dispõe a isso. Antes o ‘você’ do que o ‘é nóis’ ou todos nós acharmos que o Brasil se divide em norte e sul apenas e não em cinco regiões distintas.

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