Crise existencial amazônica [parte 1]

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Auuuuuuummmmmmmmm

Nasci em Belém do Pará, para quem não sabe. Essa é uma maldição para alguns e uma benção para outros. Para mim, é indiferente. Por que diabos eu sentiria orgulho de algo que eu nem escolhi? Não me lembro de estar flutuando no cosmos, apontando para a capital paraense e exclamado com o peito estufado: “É lá, no meio da floresta, no meio do nada urbanizado que eu quero nascer”.

Sei muito bem que tudo não passa de uma divisão para facilitar a administração. É apenas uma questão burocrática, que as pessoas teimam em enfeitar com mil clichês e estereótipos. Por qual motivo elas fazem isso? Sinceramente, eu acredito que a resposta está no surgimento de um sentimento igualzinho, mas que funciona em um nível diferente.

O nacionalismo moderno tem suas raízes no mundo medieval. O espírito dos nobres cavaleiros, que lutam pelos seus ideais cristãos- a pátria ancestral- acabou se tornando o embrião para esse sentimento de pertencimento e de luta. Com o tempo, os cavaleiros deixaram de atacar moinhos e passaram a defender nações. No final da Idade Média, já começavam a surgir os primeiros Estados Nacionais, um dos últimos suspiros da nobreza, mas que já carregavam na sua origem elementos do mundo moderno.

É importante ressaltar que os Estados Nacionais não brotaram do nada. Além do contexto histórico/social/econômico, elementos do imaginário popular foram representados e resignificados. Era preciso criar uma unidade, fazer com que as pessoas se sentissem parte de uma só memória. Criam-se os hinos, as bandeiras – que antes representavam feudos e famílias – começam a tremular por aglomerados humanos num território dividido por fronteiras. A nação nada mais era do que uma grande família, liderada pelo seu patriarca-mor: o rei.

Fruto dessas condições do medievo europeu, o romantismo traduz a ideologia individualista, ufanista e nacionalista. Nos séculos seguintes, ocorrem alterações significativas: o ser romântico se embrenha por todas as questões sociais: as novas classes também querem seu lugar ao sol. Burgueses e nobres disputam status social; trabalhadores começam a se organizar na criação de uma identidade. É impossível ignorar que todos esses fenômenos não estão ligados àquele embrião medieval.

Os cavaleiros modernos não querem feudos ou títulos, querem mercado consumidor e poder político burocrático. Explodem as revoluções burguesas, cria-se a democracia moderna, os Estados Nacionais são reconfigurados, diminuídos e aumentados conforme o seu tempo. Quando incham, acabam em guerra. Guerras, napoleônicas, primeira, segunda, fria.

Enfim, por que todo esse bla bla bla? Porque o nacionalismo é o pai do regionalismo.

[continua…]

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2 pensamentos sobre “Crise existencial amazônica [parte 1]

  1. Anônimo disse:

    tem gente que fala que o nacionalismo é o refúgio dos canalhas. Como sou um cara radicalmente dividido, acredito numa estranha utopia de que o teletransporte acabaria com o nacionalismo. Num mundo ideal onde todo mundo pudesse escolher onde viver, aposto que as cidades seriam uma miscelânea de tipos humanos que em poucos milênios iria apenas guardar resquícios de uma cultura genuína, mais a título de curiosidade, de chamariz turístico – eu, por exemplo, gostaria de morar durante o verão em barbados e durante o inverno na escócia, só pra passar frio trancado num pub. E ainda, se o mundo trocasse os mandamentos do Estado pelos mandamentos de uma única moral religiosa? A Igreja englobando todos os elementos estatais, sendo juízes os teólogos e a jurisprudência única e global, haveria ainda exército e hinos que celebrassem a morte pela pátria?
    Deixa pra lá, isso daria muito o que escrever nesse espacinho. por outro lado, enquanto essas ideias não passam de suposições bizarras e um bocado idiotas, acho mais do que natural acabar amando o que está mais próximo de si sensivelmente.

  2. […] explicado no post anterior, o regionalismo é um sentimento que opera no mesmo sentido que o nacionalismo, mas em um nível […]

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