Crise existencial amazônica [parte 2]

Cavaleiros do feudo amazônico

Regionalismo, filho adotivo do nacionalismo

Como explicado no post anterior, o regionalismo é um sentimento que opera no mesmo sentido que o nacionalismo, mas em um nível geográfico/espacial diferente. Ele exibe suas particularidades, pois muitas das vezes não existe de forma a representar oficialmente uma população, mas para subdividir um território de acordo com suas características geofísicas.

De divisão geográfica/politico-administrativa, o regionalismo passa a se tornar uma nova cria do nacionalismo, importando – paradoxalmente – sua estrutura ideológica e organizacional. Surge ai uma contradição: o regionalismo torna-se um conjunto complexo de super valorização de um território e da população que lá reside, no entanto, ao mesmo tempo, não é produto da própria região, mas uma importação de uma ideologia que surgiu no medievo europeu.

Amazonismo – A região compreendida como Amazônia apresenta vários conceitos divergentes quanto a sua área de abrangência (ora se leva em conta a Floresta Amazônica, ora outros fatores como indicadores políticos, econômicos e sociais). Em todos os casos, a cidade de Belém é considerada parte da região amazônica ou ainda, metrópole da mesma (Depois ninguém entende de onde surgem atitudes xenófobas como a de Amazonino)

Ver-o-peso : estereótipo explorado exaustivamente, quase uma Torre Eiffel. Belém cria seus monumentos, tragédias e imagens para se autoafirmar como metrópole da Amazônia.

A capital paraense, no auge da sua prepotência, se auto considera a metrópole (ou seja, maior e mais urbanizada cidade da região) e produz, artificialmente, nos seus espaços acadêmicos/intelectuais a cultura amazonista. A intelligentsia belemense gasta uma imensa energia na tentativa desesperada de valorizar a tal da região amazônica, vista ora como um ambiente especial, mágico e de cultura inacreditável,ora como uma terra de sofrimentos e conflitos, mas também com essa conotação do especial. Todas as situações da “Amazônia” , reais ou imaginárias, são singularizadas num movimento que insiste em buscar raízes na tradição da população local. São várias imagens evocadas em torno do movimento

Numa referência a Adler, essas pessoas certamente sofrem de uma espécie de psicose coletiva movida por um complexo de inferioridade com relação às outras regiões administrativas do Brasil. Novamente apelando para a singularização, a tal região amazônica (misturada com a região norte) sempre parece reivindicar um lugar ao sol junto com as demais, enquanto não observamos a mesma angústia na região centro-oeste, por exemplo. Esse sentimento amazonista acaba contaminando projetos culturais, museus, monografias, projetos de pesquisa/extensão etc. E pior: cria uma espécie de moral amazônica em que o individuo se sente punido socialmente por não valorizar a região. Eis a crise existencial amazônica. Não se sabe para onde ir, estamos presos na mesma bolha antropológica que as comunidades quilombolas.

A questão só é mais problemática porque muita das vezes não estão se referindo à região amazônica oficial, mas à uma memória imaginária de Belém com relação à verdadeira Amazônia (que tal esse termo? Estou conseguindo me tornar uma autêntica cavaleira pronta a defender o feudo amazônico?).  Belém criou esse mito social e impõe – sem perceber – essa cultura para o resto da verdadeira Amazônia. Enquanto a cidade se perde entre tribos e ver-o-peso, Manaus tenta criar uma outra imagem, mais “internacionalizada”, “globalizada” e moderna. A impressão que chega à capital paraense é de que Manaus é um verdadeiro oásis capitalista no meio da selva. As duas cidades agora disputam o poder ideológico sobre a cultura “autêntica” da região. Enquanto isso, o resto das cidades do interior apenas observam um movimento que não faz o menor sentido para eles. É óbvio que o interesse das duas cidades  é o de exportar para as demais regiões do Brasil aquilo que cada uma considera a riquíssima cultura nativa. É como uma criança que vira para a mãe ” Olha, olha o que eu fiz, olha, olha, aplaude mãe, senão eu vou chorar”. Ou então é como um idoso – faz até mais sentido histórico – que se sente desprezado pelo resto da família e cheira cocaína para chamar a atenção.

Mas não posso apenas falar do problema sem apresentar um tratamento adequado. Refletir sobre as contradições desse sentimento (mascarado, geralmente, pelos academicismo) é o primeiro passo. Por que eu tenho que valorizar a Amazônia? De onde veio essa obrigação? A quem interessa realmente isso? Depois, é preciso perceber que o regionalismo, particularmente o amazonismo, é uma estrutura limitadora, porque se despreza toda e qualquer produção cultural em nome da padronização de conteúdos em torno da tal “Amazônia”. Se é para ser vista, a Amazônia vai ser naturalmente estudada, observada, admirada, criticada pelo resto do país. Não é preciso ter ataques apopléticos toda vez que mostram a região como uma selva sem tamanho. Quem sabe essa visão não é fruto do próprio amazonismo em seu nível überufanistanatureba e é preciso escolher melhor nossos políticos que levam essa mesma imagem para Brasília?

[continua…]

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Um pensamento sobre “Crise existencial amazônica [parte 2]

  1. Sophia disse:

    Caramba! li e reli o seu texto e não imagino de onde vc tirou essa ideia de que Belém era prepotente ao se auto intitular “Metrópole da Amazônia”. A primeira metrópole da região norte foi Belém. Ela não pediu e muito menos comprou esse título, foi-lhe dado pura e simplesmente por ter se tornado a capital nortista mais desenvolvida e mais importante desde sua criação. Tem um desenho da disney que vi na minha adolescência e revi um dia desses, na globo, em que o avião onde o pluto está faz uma escala na Amazônia e adivinha qual a cidade escolhida, com direito a localização no mapa e tudo? Belém é claro! não creio ela ter sido escolhida por um uni-duni-tê qualquer. Belém além de ser uma metrópole ela é uma cidade cosmopolita também (será que ela se auto intitulou também?). Vc deve saber que no Brasil, tirando os sudestinos e sulistas o resto é considerado sem muita importância, indignos de tanta atenção por parte dos líderes e governantes deste país e acho natural que cada Estado ou cidade que se sinta injustiçado, esquecido, dilapidado ou outra coisa qualquer, tente modificar essa realidade. E se Belém tentou reverter essa situação é taxada por vc de “prepotente”?
    Sinceramente, sua opinião sobre a Amazônia e sobre Belém me fez imaginar um estrangeiro escrevendo sobre a região sem nunca ter pisado em solo amazônico(imagine então conhecer cada estado com sua cultura, sua história e seu povo tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente um dos outros!).

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