Dia internacional da Mulher: por que?

De todas as ideologias santificadas no século XX (e profanadas no século XXI), o feminismo é a que se encontra mais perdida. Enquanto os outros membros da família- como o comunismo- se tornaram mitos anacrônicos, o ideal que busca igualdade entre homens e mulheres segue nas beiradas do pensamento ocidental, sem saber se continua parado no tempo ou se se reinventa.

O feminismo não caiu com o muro de Berlim e também não continua cristalizado em partidos, em bandeiras ou centros acadêmicos. Ele flutua indeciso, ora se revestindo de clichês da revolução de sofá, ora institucionalizando-se em leis e organizações de defesa da mulher. Ao mesmo tempo, cada vez mais o feminismo se encontra distante das mulheres. Por que?

É difícil para uma mulher comum (que tem o mínimo de acesso à educação) entender questionamentos de uma época em que as mulheres ainda viviam espremidas em seus espartilhos. Hoje, dependendo das oportunidades, uma brasileira pode votar, estudar, trabalhar,  se sacudir num vestido soltinho e até ser presidenta. Como o discurso feminista tradicional pode falar com essas mulheres, se ainda utiliza citações de um século atrás?

Primeiro, é preciso que ocorra uma mudança de discurso. Não adianta nada persistir no uso de uma linguagem que não atinge, não emociona seu público. Pelo contrário, muita das vezes só provoca repulsa e distanciamento. O movimento feminista precisa se modernizar para continuar vivo na mente de cada mulher livre no mundo.

Como as mulheres contemporâneas reagem ao "feminismo". Fonte: Acessório Feminino

No nosso tempo, é natural que tudo comece a perder o sentido (já falei sobre isso aqui e aqui) e isso também acontece com o Dia Internacional da Mulher, comemorado dia 8 de março (amanhã). Entre flores e por vezes até um “esquecimento” generalizado, esse dia esvazia-se perto do que aconteceu com um grupo de operárias em 1857. Se o discurso feminista não conquista mais nenhuma mulher, é natural que essa memória também se perca com o tempo. Quase ninguém lembra da origem do dia 8 de março, assim como quase ninguém mais lembra do que muitas mulheres sofreram para algumas de nós chegarem até aqui livres e com direitos – teoricamente-  iguais.

Em segundo lugar, também é preciso mudar a estrutura do movimento.  Quais são os objetivos? Onde é possível concretiza-los num Brasil do século XXI? Ainda existe machismo na nossa sociedade? É óbvio que sim, mas não adianta combate-lo apenas com palavras ao vento, chamando as mulheres de todo mundo para uma revolução nas ruas e levantando os braços num símbolo de “luta” à la 1968. É preciso ir fundo na questão e afetar todos os âmbitos em que o feminino é agredido e como podemos, verdadeiramente, combater essa agressão.

Na tela: a terra onde tudo pode e imagem da mulher reina

Coincidentemente, nesse ano o Dia Internacional da Mulher caiu na época do Carnaval, quando justamente as fêmeas humanas exibem-se nuas e livres para todo telespectador. Qual evento tem recebido mais atenção?

A televisão se tornou o nosso pequeno palco das quase-liberdades: deixamos mulheres semi-nuas dançarem na nossa frente, mas se isso acontecesse ao vivo, ficaríamos ultrajados. A imagem sexual do feminino está ali, sendo explorado diariamente em propagandas, novelas, seriados e até em blogs! Ninguém se importa, é óbvio, mas quando uma mulher desfila no mundo “real” de vestidinho curto, a sociedade se escandaliza. Eu, pessoalmente, vivi essa experiência quando sai com um batom vermelho por ai. Na TV ninguém ficaria chocado, mas percebi as vovós virando a cara para mim e o olhar assustado dos demais transeuntes.

Na telinha: a imagem da mulher é fragilizada. Mas ninguém se comove.

Enquanto no mundo real nossa moralidade reprime, nas telas cria-se uma demanda pela imagem da mulher. E muitas outras mulheres correspondem a essa demanda, ganhando dinheiro vendendo sua imagem sexual em fotografias ou transmissões via webcam (ou twitcam). Não só nas telas, mas também na mídia impressa, que apela para as bundas e peitos em primeira página para não perder o lucro dos  jornais. A morte desses jornais já está declarada e, no desespero, eles publicam os anseios da população masculina. De quem é a culpa? Na realidade, não existe culpa. Nós vivemos em uma civilização fascinada pela imagem e os homens, infelizmente, são viciados em imagens do feminino. Isso não é de hoje e a mídia só usa a imagem da mulher porque existe um grande contingente pronto para consumi-la.

O problema não está nos homens, mas nas mulheres que, muita das vezes, não tem consciência da violência simbólica que sofrem ao se disporem a vender sua imagem sexual. Não é essa imagem responsável pela criação de toda uma cultura de fragilização da mulher frente à voracidade sexual masculina? Todos são livres para venderem sua imagem, mas será que todas as mulheres que fazem isso têm consciência de que alimentam uma indústria descontrolada? Outra pergunta fundamental: se essa exploração deve existir, por que não acontece de igual para igual?

Por fim, em outros níveis midiáticos, incomoda a proliferação de mídia impressa voltada para o público feminino e que se limita a assuntos como beleza, moda e sexo. Interessa às mulheres? Certamente. Mas e a política, economia, meio-ambiente, cultura? Também não poderia haver um enfoque feminino sobre esses assuntos?

Estereótipos são um grande obstáculo

Muitos homens se sentem ameaçados e estereotipam a imagem do feminismo: é uma mulher feia, mal comida e chata. Os homens tem que perceber que o movimento não representa qualquer ameaça ao sexo masculino, mas apenas exige respeito mútuo. Direito de receber os mesmos salários e não de aumentar o das mulheres em detrimento do dos homens. Direito de ser amparada legalmente, mas não retirar esses mesmos direitos do restante. 

Não existe motivo para os homens se acharem superiores, assim como não existe motivo para as mulheres se sentirem assim. Somos diferentes biologicamente, mas nada que afete nossa capacidade igual para estudarmos, trabalharmos, dirigirmos (sim!) e pensarmos. Já presenciei vários casos em que esses estereótipos de gênero são destruídos.

Acredito eu, essas são algumas das novas bandeiras do feminismo do século XXI. No mais, parabéns para os outros seres humanos que compartilham comigo o XX, não vamos esquecer das 130 operárias assassinadas. Um beijo especial para todas as amélias desse Brasil – NOT.

Texto: Caroline S.

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2 pensamentos sobre “Dia internacional da Mulher: por que?

  1. Mah disse:

    Adorei o texto e o blog todo 😀

  2. Emanuela disse:

    Eu queria saber porque existe o dia internacional da mulher,nãoisso

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