Consumindo-se

Falar de consumo consciente é um lugar-comum, mas também um paradoxo: o consumismo exagerado está muito mais ligado aos nossos desejos do que à nossa consciência racional. O “homus consumidis” e sua trajetória ainda é um campo pouco conhecido por ele próprio, o que sustenta a ligação entre o vazio existencial e o consumo desenfreado. Mas ainda há esperança para o consumo passional?


Hoje (15) é o dia do consumidor e você, leitor, já deve ter ouvido mil lições de moral dos jornais, tweets e afins. Para início de conversa, é importante falar sobre o que é consumir. Esse termo começou a ser usado para designar o uso de um determinado produto fabricado (ex: alimentos industrializados).Com o tempo, o conceito foi se ampliando e passou a designar o uso de qualquer coisa ou serviço mediada ou pelo Estado ou pelo setor privado (ex: consumo de água, de educação). Hoje, generalizada, a palavra se aplica às mais variadas situações, sobretudo com a invasão do management à nossa vida social e privada.

Partindo desse princípio, hoje tudo pode e é consumido: desde coisas mais concretas, como um pão, até elementos abstratos, como ideias ou entretenimento.

A trajetória do consumo: instinto, razão e paixão

Inicialmente, consumimos por necessidade biológica de alimentarmos nosso corpo e de beber água. Essas são as necessidades mais primitivas e que TODO ser humano, seja ele um homem das cavernas ou seu tio precisam. Outros produtos também incluem necessidades básicas, como moradia e vestimentas. Em outra categoria, encontram-se as coisas que são importantes para nosso consumo: serviços de educação e saúde, por exemplo. Por fim estão outras coisas que podem ou não ser necessárias: perfumes, livros, bolsas, computadores e até cultura (é daí que surge a tal Indústria Cultural). A lista segue até chegar no topo da pirâmide: o supérfluo.

Por que todas essas categorias? Porque nosso padrão de consumo foi mudando conforme a história e o mercado. Primeiro consumíamos para viver, seguindo basicamente nosso instinto de sobrevivência. Em seguida – como isso não era suficiente para manter os mercados variados e aquecidos – foi necessário criar estímulos e produtos que transformassem coisas em itens importantes para nossas vidas.

As propagandas são um claro reflexo dessas transformações, já que no ínicio elas tentavam racionalmente nos convecer de que precisávamos comprar algo. Mas o mercado exigia mais, como sempre. A razão é um caminho, porém lento. Hoje, 1/3 do nosso consumo é guiado pelas nossas paixões, pelo vínculo emocional, de desejo, que criamos com determinado produto.

Com esse cenário é difícil falar de “consumo consciente“. O regime moda trabalha para seduzir, brincar com nosso imaginário e criar (pasmem) necessidades que antes eram consideradas supérfluas*. Muitos analistas de mercado, inclusive, afirmam que esse é o segredo do sucesso empresarial: criar nas pessoas a necessidade e não satisfazer as necessidades que já existem. Vejam os celulares , por exemplo, muitas pessoas tornaram o aparelhinho um acessório indispensável.

Consumismo e a nossa válvula de escape

Mexer com nossas emoções, mesmo que superficialmente, é uma preocupação da publicidade e sua clientela. Mas quanto aos consumidores, além de terem o dever de exigir produtos e serviços de qualidade, têm que tentar controlar os seus desejos. A causa deles não é a propaganda (ela é apenas um estímulo), mas uma falta de reflexão sobre nossas necessidades.

Não é novidade que a nossa sociedade é solitária e cética. Não vivemos em um mundo que concebe o tempo na sua expectativa histórica, ou seja, não temos anseios profundos sobre nosso futuro (socialismo, ir pro céu), assim como não criamos ligações tão fortes com o passado e a tradição. O tempo é curto e é o agora. A maior parte da nossa potência de ação, da nossa energia que nos move para viver, é voltada para o agora, para o presente, ou, no máximo, para o passado recente/futuro a curto prazo. E eu pergunto, em que nós, homenzinhos sós, sem filosofias ou perspectivas, podemos ver nossos sonhos tornarem-se parte da realidade, do agora? Nos produtos que podemos comprar, é lógico.

Consumir gera prazer, gera satisfação instantânea. É uma felicidade possuir algo quando se deseja, altera nossos níveis de serotonina no corpo. Diferente do outro, um produto eu posso ter quando e onde eu quiser, se tiver dinheiro. Se eu estiver triste, mamãe me compra um sorvete. Maior prazer que comprar, só o de receber um presente.

Mas o tipo de prazer que o consumo passional gera é tão rápido como foi sua compra. É uma questão de tempo até a satisfação passar e se nada mais fez o individuo comprar o produto, esse perde o valor. Em regimes extremos, esse sistema cria uma eterna busca pelo consumo instantâneo, ou seja, compra-se em excesso e sem parar, porque o vazio existencial não consegue ser preenchido (clique aqui e leia o texto O vazio nos move?). O resultado é o consumismo, consumo exagerado, que produz lixo e se desenvolve de forma desigual – enquanto alguém consome mil lingeries, outro luta por um pedaço de pão, mas isso é outra história.

Chegamos à questão da sustentabilidade (calma, o post já vai acabar). Além do consumismo ser ruim para o meio-ambiente, ele é ruim para VOCÊ. Sim, porque quem se torna um viciado em consumo passional está se tornando um escravo dos próprios desejos (além de torrar o dinheiro). Em suma, vive uma ilusão de que a vida é feliz com o acúmulo de matérias e produtos. Perceba que o consumismo é só uma face do que nós humanos somos capazes de fazer para tentar preencher o nosso vazio existencial. Existem outras formas, como comer muito, usar drogas, usar pessoas. Consumo não tem que ser apenas sustentável no sentido de preservar a Natureza, mas também de preservar nossa razão, nós mesmos.

Loucuras, todo mundo faz e viver em um mundo inflexível também faz mal para o ser humano. O segredo é equilibrar a frequência do consumo passional na receita que inclui consumo institivo e o consumo importante. Sempre se informe e não se deixe levar todo o tempo pelas ondas emocionais. É, ser consumidor não é fácil.

*Essa ideia é desenvolvida no livro Império do Efêmero: A moda e seu destino nas sociedades modernas, do francês Gilles Lipovetsky. Indico o consumo (hehe). Está disponível em várias livrarias on-line.

NOTA: Estava com dois posts prontinhos para hoje, um sobre as mulheres-fruta e a psicanálise e outro sobre a energia nuclear, mas esse texto veio à calhar com o dia de hoje, então, aguardem os próximos.

Texto: Caroline S.

Anúncios
Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: