Mulheres-fruta: Freud explica?

Você liga a TV e tem uma mulher de quadris avantajados dançando um funk sem sentido. Uah, não é novidade, certo? Ledo engano quando o apresentador indica o nome da dançarina: mulher-melancia. E a partir daí começam a pipocar na mídia variações bizarras de mulheres-fruta. Seria esse apenas um fato isolado de uma mídia desesperadamente esquizofrênica ou existe muito mais por trás do fenômeno?

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E a Mulher-abóbora? - Imagem retirada do site Jacaré Banguela

Já tem algum tempo que eu to devendo esse post para os leitores do jornal – na verdade, eu to parecendo político prometendo posts e enrolando vocês. Pois bem,  a ideia para esse texto surgiu um tempinho atrás a partir da proliferação repentina na mídia das “mulheres-fruta”.

Em um primeiro momento, parece que estamos nos referindo a alguma tribo  formada por mulheres primitivas coletoras de frutos ou então de personagens de uma experiência científica que não deu certo. Na realidade, trata-se de mulheres com atributos sexuais inflados e que relacionam esses atributos ao nome das frutas, enquanto fazem exibições televisivas. Esse fenômeno é extremamente curioso, porque não é isolado,já que não foi apenas uma mulher com nome de fruta se sacodindo na TV , mas várias.

Esse texto pode fugir um pouquinho do padrão JS de qualidade, principalmente por conter penduricalhos teóricos. Mas o importante é refletir sobre o assunto. Eu aproveitei para pesquisar sobre e percebi um padrão interessante na relação entre o ato de comer e o ato sexual.

Explicação teórica (pule essa parte se não for pseudo-intelectual)

Na antiguidade clássica, comer e fazer sexo eram relacionados não só na mitologia, mas também na vida prática das pessoas. As grandes festas eram sempre acompanhadas de muito vinho, banquetes suntuosos e orgias. Já na Idade Média, tanto a gula como a sexualidade foram institucionalizadas na esfera do pecado, o que permitiu uma união simbólica muito maior entre esses dois elementos. Essa união, que já existia nos profundos do inconsciente coletivo, permanece nas práticas sociais.Mas, por que?

No livro que eu to lendo agora, Estruturas Antropológicas do Imaginário ( eu sei que o nome assusta, mas é muito legal), o autor Gilbert Durand divide o imaginário em dois “regimes”: o Regime Diurno da Imagem – um conjunto variado de imagens e mitos relacionados à ascensão, transcedência, luz, gládio, contraposição etc etc – e o Regime Noturno da Imagem, o contrário do primeiro, com imagens de repetição, dupla negação, queda etc etc.

Frutas + sua mente poluída = anotomia de orgãos sexuais

É justamente a partir das imagens do Regime Noturno  que essa relação entre o sexo e a alimentação é explicada. De acordo com o livro, as imagens dessa categoria partem do princípio da queda controlada, ou queda “pastosa”. Pensou em alguma coisa? Pois é, eu também pensei imediatamente no ato de engolir. Os alimentos, depois de mastigados se transformam em uma massa pastosa que desce pelo tubo digestivo em direção ao ventre.Biologicamente, a direção para que caminha o bolo alimentar é a dos orgãos sexuais. Isso provavelmente afetou a forma como todos os povos relacionam comer com fazer sexo.

Freud ainda disse que todo ser humano passa por essas fases do desenvolvimento do psicossexual:

1. Oral Quando somos bebês, praticamente não temos muitas possibilidades de ação. Nossa grande ferramenta é a boca, como choramos de madrugada, berramos nos aviões e temos prazer ao mamar. Segundo Freud, do nascimento até 1 ano de idade, nosso maior ponto de tensão e gratificação é a boca.

2. Anal É a fase em que aprendemos a ir no banheiro e exclamamos singelamente: “mãae, vem me limpar!” Nessa fase, convivemos com uma espécie de dualidade entre a gratificação por fazermos algo sozinhos e de maneira correta (higiene) e por fazermos algo não aceito socialmente: defecar. Li uma vez que é comum crianças acenarem para suas fezes sem sentir qualquer repulsa. A repulsa vem do social, portanto, é nessa fase que desenvolvemos nosso superego (ou aquela parte da nossa mente que estabelece regras e nos censura o tempo todo).

A fase seguinte é a fálica-edipiana (olha que nome complicado), depois  latência e, por último, já na fase adulta, a genital. Clique aqui se quiser ler mais sobre isso, até porque não sou a melhor pessoa para divagar sobre psicologia aqui.

https://i0.wp.com/www.vooz.com.br/imagem/noticias/melancia_eb8fc96b3e2aa908336f5da964f59d3a.jpg

Em tempos de inflação, até as nádegas femininas começam a aumentar.

O ponto importante é que a fase anal relaciona nossas tensões sexuais com o último estágio da digestão e a fase oral com o primeiro estágio, ou seja, mais uma prova de que os dois elementos estão nitidamente ligados em outros aspectos.Talvez a história seja mais profunda do que estejamos imaginando, mas esse pensamento se manifesta em váarios elementos da nossa cultura. O primeiro deles é:

Na língua

Não precisa ser dotô para perceber que nos idiomas, sexo e alimentação estão ligados. No Brasil, um exemplo clássico é na comunicação oral,   muita das vezes vulgar, em que uma mulher sexualmente atraente é chamada de gostosa, adjetivo originalmente usado para designar alimentos com um bom sabor. Ou ainda mais vulgar, o uso do verbo comer no sentido de um homem fazer sexo com uma mulher. Interessante que na maioria dos casos esse é uma característica da mulher: ela é a gostosa, ela é a comida, ela é um alimento. E quando um homem é homossexual, o que dizem? “Ele não gosta da fruta”.

Relacionar diretamente alimentos com a anatomia dos órgãos sexuais também é muito comum: nas frutas banana, maçã – daí que vem a relação com “fruto proibido” e o sexo como pecado – no pepino, ovos, salsicha e por ai vai.

Na publicidade


Os publicitários de plantão perceberam o quanto isso está enraizado na cultura brasileira e a indústria de alimentos/bebidas de vez em quando relaciona diretamente o produto ao atributo sexual da mulher. O contrário não acontece e eu poderia citar mil teorias que tentam explicar isso, mas vamos parar por aqui. Se quiser ler algo mais sobre publicidade e mulher, clique aqui.

Na música

Morena Tropicana

Alceu Valença

Da manga rosa quero o gosto e o sumo,
Melão maduro, sapoti, joá,
Jabuticaba, teu olhar noturno,
Beijo travoso de umbu-cajá.

Pele macia, carne de caju,

Saliva doce, doce mel, mel de uruçu,
Linda morena, fruta de vez, temporana,
Caldo de cana-caiana, vem me desfrutar,
Linda morena, fruta de vez, temporana,
Caldo de cana-caiana, vou te desfrutar!
(Solo)
Morena tropicana, eu quero teu sabor,
Oi, oi, oi, oi!
Morena tropicana, eu quero teu sabor,
Oi, oi, oi, oi!

Existem vários outros exemplos, que o amigo leitor poderia citar nos comentários. Que os alimentos e o sexo estão relacionados, isso não se tem dúvida, mas até que ponto isso é bom ou ruim – sobretudo quando se pensa em mulher, consumo e machismo- ainda não se sabe – nem Freud, nem Lula.  O que você acha, leitor?

No próximo capítulo: Centros Acadêmicos e o ralador político dos anos 80

Texto: Caroline S.

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