Privatizando as cores?


Direito autoral é o tipo de coisa que sempre me deixa irritada. Não, não estou falando dos DVDs piratas sendo vendidos na porta da universidade. Também não estou me referindo ao donwload de músicas,às cópias escrachadas de TCCs ou à cópia de conteúdos e piadas entre blogs.

O que me irrita é levar a ideia do Direito Autoral, que já tem seu lado equivocado, aos extremos. É quando o sujeito/empresa já se acha na situação de gênio inventor de coisas folclóricas (ou seja, que não tem autor), como cadeira, hamburguer e – pasmem – até das cores. É muito abuso para ser verdade? Pois uma cor  foi suficiente para a marca de sapatos Christian Louboutin, conhecida pelo uso do vermelho na sola dos sapatos, processar a Yves Saint Laurent em abril deste ano.Por que? A marca estava lançando uma coleção de sapatos com a sola da mesma cor – azul com sola azul, verde com verde e.. ah, vermelho com vermelho.


Mas Carol, vermelho é a marca registrada dos Louboutins *_*

Eu sei, mas pense: se todo mundo começar a seguir esse raciocínio a Chanel deveria ter privatizado o little black dress e você só poderia ter um pretinho básico se comprasse na maison (inclusive, já soube que o corte de cabelo curtinho, tal qual o da Madame, não recebe mais o nome da dita-cuja). Nem precisa ser na moda o exemplo: já pensou ter que pagar taxas para quem inventou guarda-chuva daquela cor; blog nesse formato? Existem coisas que são universais e aplicar à risca os princípios do Direito Autoral acaba sendo estúpido.  Cores, estampas, texturas não podem ser privatizados, porque são basicamente os materiais de que dispõe os estilistas. Se a atitude da Louboutin se transformar em uma tendência jurídica, em breve o poá vai ser exclusivo da primeira empresa que chegar no cartório. Daqui a pouco, as marcas vão ficar limitadas, cada qual com a sua cor/textura/estampa exclusiva e o resultado vai ser pouca variedade nas passarelas.

Então tu és à favor da cópia?

Nem contra nem a favor. Vivemos numa sociedade que valoriza muito a cópia e, sinceramente, nada é original. Chegamos em um ponto em que nada se cria, tudo se copia. Mas o que diferencia as cópias uma das outras é em que medida tal coisa foi usada como inspiração/ referência ou é apenas uma cópia idêntica. Como dizia Gilles Lipovetsky, as coisas novas vêm nas pequenas diferenças, nos detalhes e adaptações.

Imaginem se Louboutin souber que em lojas de Belém já vi vários sapatos com a sola vermelha? Daqui a pouco a cor vai ser só dele e ai de quem ousar vestir uma calcinha vermelha. Em síntese: ter uma marca registrada é legal, processar os outros por usar uma cor não.

UPDATE: Não é que a Louboutin resolveu agora colocar detetives para investigar a Dior. Que diabo no couro é esse, gente? Confiram aqui.

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Um pensamento sobre “Privatizando as cores?

  1. Se direito autoral, é o direito do autor, do criador, do pesquisador, do artista, de controlar o uso que se faz de sua obra, como poderemos enquadrar o uso da cor? Desde quando Cor é obra? Talvez algum católico diga: de Cristo. Ou um muçulmano: de Alá. Mas façamos o seguinte: perguntaremos aos físicos, aos artistas, aos filósofos… mas acho que ninguém encontrará o primeiro autor. Citando Roland Barthes: “A voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte”. Talvez, pelo fato de nunca ter existido. #Divagações.

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