Pioneiro = melhor? A crítica de Belém acha que sim.


Claro que pioneirismo é uma qualidade. Afinal, ter uma ideia diferente de todo mundo, iniciar um projeto inovador – só ter a sacada do projeto já é válido – é para poucos. Mas e quando isso começa a se transformar em uma justificativa quase plausível para pouca qualidade e o pior: para a falta de crítica

Quem não reconhece os esforços alheios, principalmente daqueles que se aventuram em terrenos nunca antes explorados é, de fato, um invejoso. Aqueles que tentam experimentar uma coisa nova, em um ambiente (lugar + pessoas) pouco favorável tem, certamente, seus méritos. Apesar disso, em muitos casos, isso se torna uma desculpa para a falta de qualidade. Não entendeu lhufas do que eu disse? Tá bom, vou dar um exemplo.

Umas semanas atrás fui para o desfile de um evento de moda daqui de Belém. É um dos poucos, senão o único que acontece aqui na cidade. Os organizadores e estilistas sofrem todo tipo de problemas que qualquer pioneiro sofreria: dificuldade na hora do patrocínio, divulgação, pouco reconhecimento e até com relação à venda posterior das peças. Aos trancos e barrancos, no entanto, o grupo realiza de cabeça erguida o que se propõe a fazer. Isso é louvável.

Triste mesmo é o embaraço da imprensa nativa. Com certo despreparo, a grande mídia de Belém se limita a descrever os materiais utilizados nas coleções, um elogio capenga ali, uma declaração desnecessária acolá. E assim se fecha uma matéria totalmente previsível .Eu entendo: quando se trabalha nessa área, é realmente MUITO fácil cair no lugar-comum, ouvir as mesmas declarações. Quem sai perdendo, além do público que tem que engolir textos burocráticos? A própria moda paraense.

Qualquer arte/objeto cultural, para se estabelecer, precisa de profissionais qualificados e experientes. O trabalho da crítica está como parte da formação desse profissional. Nos acertos e tropeços, quando bem apontados, um estilista vai construindo sua marca. Claro que ele pode escolher ignorar. Claro que também pode ouvir muitas besteiras. Mas, se no meio de tanto lixo publicado, existir uma opinião bem baseada, esse pode ser o norte de qualquer artista/produtor cultural.

Caso grave de desaparecimento: onde estão os críticos de Belém?

O que acontece em Belém? Não existem críticos. Não sei o motivo. Talvez por medo, talvez por desconhecimento total do que se esteja falando. O resultado são textos bem pobres e que não dão vontade de ler, afinal, sempre elogiam a “criatividade” e “beleza” dos desfiles. Na hora de assistir, ao vivo, a coisa é bem diferente. Algumas coleções surpreendem, enchem os olhos. Outras desapontam.

Mas Carol, eles já ganham por conseguirem fazer moda em plena Amazônia!!

Tá, mas será que por causa desse pioneirismo os estilistas paraenses podem apresentar coleções medíocres, ruins? (não to dizendo que todas foram assim, gente, pelamor). Não. Pioneirismo é uma qualidade, mas estilistas, artistas, produtores culturais tem que saber ouvir críticas, para poder agregar mais qualidades ainda para o seu trabalho. Além de enfrentar as dificuldades, eles podem lançar tendências que pegam em Belém, que tal? É muito difícil, eu imagino, mas sonhar um pouco mais alto nunca é demais.

E isso só acontece na moda paraense, Carol?

Não, esse foi só um exemplo. Com relação à produção audiovisual também acontece a mesma coisa. Temos trabalhos maravilhosos, outros ruins, enfim, é bem fervilhante, mas só lemos releases (textos de divulgação) nos jornais.

Não é só na moda e no cinema paraense, nas artes plásticas vejo claramente esse problema: ano passado participei de um colóquio sobre imagem e uma moça expôs um trabalho sobre curadoria de uma galeria aqui de Belém. Durante a apresentação, lembro que ela falou sobre a falta de crítica nos jornais – ela analisou a imprensa também. São poucas pessoas que se interessam em uma exposição de arte se ela só chega até você por meio de um release. Para movimentar um evento, tem que gerar aquele clima de agitação, de discussão: o colega foi e não gostou disso e daquilo, o outro vai lá conferir e assim por diante. O ser humano adora socializar suas experiências – e no nosso tempo isso é levado aos extremos com as redes sociais online.

O papel da crítica é apimentar ainda mais a discussão:O que os filmes de hollywood sempre colocam nas propagandas? Trechos de críticas do New York Times ou qualquer outro jornal importante. Por que? Porque conseguir uma crítica positiva é difícil, é um troféu!! Criticaram negativamente a JK Rowling? Isso só fortaleceu mais ainda a escritora. Enfim, crítica não é algo dispensável, pelo contrário, ajuda todo mundo: o artista a se reconstruir e aprender com os erros, a arte a se fortalecer e melhorar, os jornais a ficarem mais interessantes e, óbvio, o público é quem mais ganha com tudo isso: eventos culturais melhores e jornais melhores! Até estilistas admitem que a crítica de moda não anda lá muito boa e de como isso é ruim para todo mundo.

Mas crítica é só uma opinião, sem valor algum. Reflete gosto e gosto não se discute.

Se discute sim. Parem já com essa história de religião, futebol e política não se discute!!Que bobagem. Discussões são legais, só é preciso ter bom senso e não partir para o lado pessoal. Outra: se todas as críticas fossem inválidas, em outros lugares do mundo, onde a cultura recebe muito mais apoio, ela não estaria tão forte. Ah, mas em Belém não pode porque os artistas/produtores daqui são pioneiros? Ah, vá se catar, olha. Ser pioneiro não pode mais ser desculpa para a falta de crítica dos produtores/artistas daqui. Pelo contrário, temos que garantir mais experiência para essas pessoas: tanto elogiando, quanto criticando negativamente. Tudo tem que estar de acordo com o merecimento do trabalho do cara. Justo, não?

Acho que todo mundo pode criticar, mas nem todo mundo pode ter espaço em um veículo de comunicação de massa, por razões de espaço/logística. Além disso, um bom crítico deve conhecer muito do assunto. Fui uma vez acompanhada de estudiosos de teatro assistir a uma peça e eles apontaram com muita propriedade aspectos que também tinham me incomodado durante o espetáculo. Claro que eles poderiam falar muito melhor que eu sobre o assunto, daí a importância do conhecimento.

Além disso, é importante ter experiência. De que adianta falar do teatro paraense se nunca vai aos espetáculos? Só vai publicar o release e soltar um quilo de palavras fora de contexto. De que adianta escrever da culinária paraense se o sujeito só se aproveita da credencial para se empaturrar e elogiar o restaurante X? Que credibilidade teria esse colunista?

Humildade também é fundamental: é preciso reconhecer quando um trabalho é bom, mesmo que o produtor seja um antipático. É preciso reconhecer que se foi duro demais com aquele evento, que é preciso medir as palavras, porque elas podem ser poderosas.

Gosto de usar o exemplo do personagem do filme Ratatouille, o crítico Anton Ego. Inicialmente é uma figura sombria, ácida e sem sentimentos. Tira a credibilidade dos maiores restaurantes da França e não tá nem ai para o esforço da equipe de chefs. Já no fim do filme, Ego reconhece que às vezes o trabalho de um crítico é fácil, afinal, não é o trabalho deles que é colocado à prova. O crítico também reconhece que mesmo vindo de uma fonte totalmente desprezível, um trabalho pode ser maravilhoso e é obrigação dele dar o braço a torcer.

Críticos acríticos de Belém, mirem-se no exemplo de Anton Ego.

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