Arquivo da categoria: Amazônia

Pioneiro = melhor? A crítica de Belém acha que sim.


Claro que pioneirismo é uma qualidade. Afinal, ter uma ideia diferente de todo mundo, iniciar um projeto inovador – só ter a sacada do projeto já é válido – é para poucos. Mas e quando isso começa a se transformar em uma justificativa quase plausível para pouca qualidade e o pior: para a falta de crítica

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Crise existencial amazônica [parte final]

Versus versus

É parte da natureza do pensamento ocidental dividir em categorias para o melhor entendimento de um sistema. No mundo real, no entanto, a geopolítica é muito mais complexa do que a oposição regionalismo x globalização. As dinâmicas entre Belém e Manaus são a prova disso.


Telão, animação, furor, latinhas de cerveja. Não, não é um show de rock, mas o cenário de expectativa que a capital paraense vivenciou durante o anúncio das cidades selecionadas para a Copa de 2014, no Brasil. E Belém disputava justamente com sua arquinimiga, a capital do Amazonas, Manaus. Quando esta última ganhou, nem é preciso comentar a indignação do povo belemense, que, na sua maioria, acha que Manaus é uma cidade menor e menos importante.

O fato teve um impacto muito forte, sobretudo no âmbito político paraense. Governos foram responsabilizados pelo “fiasco” da copa e não duvido de que isso afetou as eleições também. Mas uma coisa era certa: a cidade não aceitava perder justamente para Manaus. Foi um banho de realidade que doeu no ego de cada cidadão esperançoso. Do outro lado da “Amazônia”, a Zona Franca e o governo celebravam junto à população a vitória.

Governo foi responsabilizado pelo "fiasco".

O que essa situação nos prova? Que existe, por trás do mito de uma região única e unida, um conflito político separatista (como muitos outros dentro do próprio Estado do Pará). Não é porque compartilham a mesma posição geográfica e os índices sociais catastróficos que as duas principais cidades da Amazônia vão se unir. Cada uma olha para a outra com uma imagem distorcida, o que acirra a rivalidade.

Conflitos irracionais desviam o foco do principal problema

Novamente a estupidez romântica causa uma raiva irracional, já que o imaginário que ambas a cidades tem da outra é utilizado pelas suas elites políticas como combustível eleitoral. Não existe motivo lógico para o povo das duas cidades se odiarem, mas certamente a crise existencial amazônica está por trás desse sentimento.

Ambas brigam simbolicamente pelo posto de metrópole. Uma quer ser a metrópole da Amazônia, outra quer ser a Chicago brasileira. Uma está perdida no redemoinho egocêntrico regionalista e a outra tirou os pés do chão enquanto voa nas pretensões de multinacionais. Manaus e Belém, no fundo, reproduzem a oposição regionalismo x globalização, um conflito queridinho no campo simbólico por esquerdistas e ecologistas de plantão.

Enquanto se perde tempo odiando Manaus ou Belém, os problemas sociais de ambas as cidades ficam de lado. Belém, por exemplo, é uma cidade suja e com a urbanização desordenada. Cresce em demografia, mas não em qualidade de vida. Por mais que seja lindo receber jogos da Copo do Mundo, a cidade teria capacidade de receber um evento desse tipo?

Ninguém parou para calcular realisticamente como o governo deveria investir na capital paraense para sediar jogos de um evento internacional. Da mesma forma, Manaus agora ostenta orgulhosamente a vitória, mas estaria a cidade consciente da responsabilidade? Outra questão : quando “a banda passar”, como é que ficam os hospitais, as ruas, a educação?

Para todas as questões que envolvem território e paixão, é preciso cautela. É preciso distanciamento, porque é fácil se deixar contaminar pelo idealismo, pelo “amazonismo”, por igarapés e mitos. E é disso que precisa a política da região, tanto por parte dos eleitores, quanto dos políticos.

Texto: Caroline S. Araujo





Crise existencial amazônica [parte 2]

Cavaleiros do feudo amazônico

Regionalismo, filho adotivo do nacionalismo

Como explicado no post anterior, o regionalismo é um sentimento que opera no mesmo sentido que o nacionalismo, mas em um nível geográfico/espacial diferente. Ele exibe suas particularidades, pois muitas das vezes não existe de forma a representar oficialmente uma população, mas para subdividir um território de acordo com suas características geofísicas.

De divisão geográfica/politico-administrativa, o regionalismo passa a se tornar uma nova cria do nacionalismo, importando – paradoxalmente – sua estrutura ideológica e organizacional. Surge ai uma contradição: o regionalismo torna-se um conjunto complexo de super valorização de um território e da população que lá reside, no entanto, ao mesmo tempo, não é produto da própria região, mas uma importação de uma ideologia que surgiu no medievo europeu.

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Crise existencial amazônica [parte 1]

https://jornalsanitario.files.wordpress.com/2011/02/1414040831_706a1055f7.jpg?w=300

Auuuuuuummmmmmmmm

Nasci em Belém do Pará, para quem não sabe. Essa é uma maldição para alguns e uma benção para outros. Para mim, é indiferente. Por que diabos eu sentiria orgulho de algo que eu nem escolhi? Não me lembro de estar flutuando no cosmos, apontando para a capital paraense e exclamado com o peito estufado: “É lá, no meio da floresta, no meio do nada urbanizado que eu quero nascer”.

Sei muito bem que tudo não passa de uma divisão para facilitar a administração. É apenas uma questão burocrática, que as pessoas teimam em enfeitar com mil clichês e estereótipos. Por qual motivo elas fazem isso? Sinceramente, eu acredito que a resposta está no surgimento de um sentimento igualzinho, mas que funciona em um nível diferente.

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Belém, tu não “foi” assim.

http://textosdaoficina.files.wordpress.com/2009/10/iclinguagemoral.jpg

Historicamente, a capital paraense possui uma influência portuguesa forte. Não só na arquitetura e genética, mas também na forma como o belenense fala.No processo de introdução da língua portuguesa na Amazônia, várias palavras próprias da cultura portuguesa e também certos elementos do sotaque foram absorvidos : merendeira,arredar, o chiado característico e uso do pronome “tu”.

No entanto, nas últimas décadas, com a expansão das redes de televisão de alcance nacional, a forma de se falar em Belém tem sofrido mudanças significativas. A transmissão de telejornais produzidos por redes do sudeste do país impôs uma nova dinâmica sociolinguística na capital.

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