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Pioneiro = melhor? A crítica de Belém acha que sim.


Claro que pioneirismo é uma qualidade. Afinal, ter uma ideia diferente de todo mundo, iniciar um projeto inovador – só ter a sacada do projeto já é válido – é para poucos. Mas e quando isso começa a se transformar em uma justificativa quase plausível para pouca qualidade e o pior: para a falta de crítica

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O sonho acabou

Quando John Lennon escutou pela primeira vez a música “Rock Around The Clock”, dos norte-americanos Bill Halley and his Comets, teve vontade de tirar a roupa e sair correndo pela rua. Para aqueles jovens, frutos do pós-guerra, habitantes de uma cidade industrial inglesa, não havia muito a fazer. O roteiro de suas vidas era básico: encontrar um emprego após sair da escola e manter viva a engrenagem da sociedade inglesa.

No caso de Liverpool, havia uma particularidade interessante. Como cidade portuária, era mais fácil ter acesso às novidades, às informações que vinham do outro lado do Atlântico. Foi nesse contacto com marinheiros, estrangeiros de toda espécie, que toda uma geração começou a escutar algo novo, o rock’n’roll, que surgia nos States e já arrebatava uma legião de jovens e novos consumidores.

Para os filhos da baixa classe média inglesa, fornecedora de mão-de-obra para fábricas e afins, a oferta de entretenimento era pouca. Insatisfeitos com o que a vida lhes reservara, restava freqüentar botecos à beira do cais em busca de algo novo. Foi nessa cruzada que muitos jovens, entre eles John Lennon, tiveram contacto com os vinis norte-americanos e uma crescente indústria voltada para os jovens. De salientar que a Inglaterra não havia ainda descoberto esse mercado novo, que viera dar um alento a mais uma das muitas crises do capitalismo, ou seja, a descoberta dos jovens como mercado a ser explorado.

E, como não havia mais nada a fazer, por que não criar um grupo musical de guitarras elétricas, tendo por base aquele ritmo louco que chegava quase que exclusivamente a Liverpool? Misturando influências locais, até por uma falta de conhecimento musical que lhes permitisse reproduzir com fidelidade o que Elvis Presley e sua turma faziam, eis que estavam semeadas as raízes do que viria a ser conhecido como o “rock inglês”.

Vestindo jaquetas de couro ao estilo dos beatnicks americanos e topetes à moda dos ídolos de lá, começaram a pulular, como cogumelos depois de um dia de chuva, centenas de grupos de rock.

Liverpool tomava assim a dianteira da produção de uma nova cultura, de matiz inglesa, e que inflamava os espíritos cheios de adrenalina juvenil dos filhos da classe operária da cidade. Foi nesse frenesi que John Lennon cruzou um dia com um jovem chamado Paul e os dois resolveram criar mais um grupo musical no meio daquela onda que se agigantava. Ao perceber esse movimento original, os homens de gravata não tardaram em perceber que ali, a exemplo do que já acontecia nos States, poderia estar uma nova fonte de renda. Um produto feito por jovens e direcionado aos jovens.

Entre as centenas de grupos que agitavam a cena musical de Londres, uma vinha se destacando: eram, a princípio, os Silver Beatles. Foi aí que um jovem egresso da classe média, Brian Epstein, interessou-se por aquele grupo que já atraía uma pequena legião de fãs ao então pouco conhecido Cavern Club. Brian estava à procura de algo que aumentasse a fonte de renda da família – e, com uma boa visão empresarial, viu, naqueles cabeludos frenéticos, uma boa chance de negócio. Procurou então um conhecido produtor musical, George Martin, e lhe apresentou os jovens rapazes. A princípio, Martin não percebeu o diamante bruto que lhe era apresentado e fez algumas exigências a nível musical. Não iria arriscar o seu prestigio apostando num grupo e num estilo musical que bem poderia ser apenas mais uma moda passageira.

No entanto, o espírito criativo da dupla Lennon/McCartney acabou por convencer George Martin, que ficou encantado com aqueles jovens cheios de energia e idéias. O resto da história todo mundo conhece: a Beatlemania tomou conta das Ilhas Britânicas nos finais de 1963 e, passado poucos meses, era uma febre entre os adolescentes norte-americanos.

O que pouca gente sabe é que o Beatles, além de serem os mais proeminentes e destacados porta-vozes de uma geração que quis mudar o mundo, eram também a ponta do icebergue da indústria dos equipamentos musicais. Em função deles e da crescente necessidade de apresentá-los a públicos cada vez maiores, as fábricas de equipamentos foram fabricando amplificadores e toda uma gama de suporte ao novo espetáculo da terra. Pouca gente sabe também que os Beatles recebiam gratuitamente, para testarem, os artigos de ponta desse novo segmento, como guitarras, microfones, pedais e toda a parafernália que passou a fazer parte do show-bizz. Mas, o que ninguém esperava é que eles, os Beatles, a vanguarda do movimento, tanto a nível musical como conceitual, estavam fartos daquilo e chutaram o balde, abandonando as apresentações públicas ainda no ano de 1965. O que não impediu que os maiores clássicos do gênero fossem produzidos após esse rompimento com a indústria do espetáculo. A partir dali, a criação era o elemento mais importante e foi nisso que eles concentraram as suas forças.

Ao mesmo tempo, quer queiram quer não, eles influenciaram toda o comportamento de uma geração, inclusive propiciando o surgimento de centenas de novos grupos, que viriam a manter viva e acesa a chama da nascente indústria. O ápice desse movimento cultural e político foi o mítico festival de Woodstock, em agosto de 1969. Foi também o princípio do fim. Os engravatados já haviam descoberto uma novo filão, um novo mercado – bilionário – e de proporções planetárias.

Esse paradoxo afetou internamente o grupo de Liverpool, que passou a buscar o auto-conhecimento até em regiões longínquas como a Índia (mas isso é conversa para um outro artigo) e que acabou, por força de pressões externas e desavenças internas, por desintegrar o unido quarteto dos cabeludos que mudaram o mundo. Como o final dos Beatles, Lennon proferiu a mítica frase: “o sonho acabou”, complementando, “a única diferença é que hoje há um monte de homens usando cabelos compridos”. Ele estava certo.

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