Embates feministas: beleza x inteligência


Costumo ler os textos do blog da Lola Aronovich, o Escreva Lola Escreva. É muito bacana, às vezes encontro coisas que eu gostaria de falar sobre, principalmente com relação aos blogs machistas e piadinhas que pipocam o tempo todo na web. Apesar disso, de vez em quando encontro nos textos – e no discurso de algumas colegas que se dizem feministas – uma clara aversão à vaidade feminina (colocada como uma imposição masculina e das empresas/mídia que criam padrão de beleza etc) ou qualquer outra coisa relacionada à moda, maquiagem e aparência. Por fim, chegamos à dicotomia beleza x inteligência. Esse tema tem se mostrado muito problemático e creio que seja digno de uma discussão mais aprofundada, principalmente dos que defendem a causa feminista.

Em primeiro lugar, não acredito que estejamos vivendo em um mundo de fronteiras fixas, divisões absolutas ou qualquer outro sonho cartesiano/platônico. Beleza não exclui inteligência e vice-versa, assim como ser mãe não exclui trabalhar, e ser feminista não significa ser desleixada e usar roupas feias.Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas me parece que essa marca no discurso seja resultado de um conflito ideológico da modernidade. A separação artificial entre corpo e mente e uma desvalorização do primeiro é um pensamento tipicamente moderno e que já sumiu do Zeitgeist atual, mas prevalece em alguns discursos, como o feminista.

Se não me engano, foi Kant que afirmou que a ordem está na nossa cabeça, ou seja, nossa mente que cria esses limites e divisões. É claro que precisamos disso, é o que Freud chama de consciente e, segundo o pai da psicanálise, sem isso estaríamos mergulhados nas profundezas da psiquê. De qualquer forma, não podemos levar tão à sério e de forma absoluta nossa consciência.

Agora chega desse bla bla bla acadêmico. Vou contar uma historinha: quando tava naquela fase de formação da personalidade, conhecida como adolescência, adotei – mesmo que inconscientemente – muito do ideal feminista. Também passei pela fase de rejeitar tudo aquilo que considerasse coisa de dona de casa submissa, culpando o batom e as revistas adolescentes pela imbecilização das meninas. Essa rejeição do feminino, depois percebi, era na verdade uma falta de referências. Para mim era assim: mulheres que se preocupavam com aparência eram burras e fim. Por que? Porque eu automaticamente relacionava a ideia de beleza com todos os esteriótipos e referências de mulher burra.

Mulheres belas,  inteligentes e… que ajudaram o movimento feminista

Com o tempo eu amadureci – acho – e percebi que existem mulheres inteligentes, bem-sucedidas e vaidosas. Uma delas, veja só, tinha até um quê feminista: Coco Chanel (1883 – 1971) é até hoje para mim uma referência não só de estilo, mas de como uma mulher pode ser bonita a partir dos seus próprios conceitos (ela revolucionou a beleza feminina no inicio do século XX), além de ter seu próprio negócio, seus amantes e não depender de homem nenhum para sobreviver. Apesar de umas manchas na biografia que eu não aprovo, como ser espiã para os nazistas, Chanel era ousada e estava à frente do seu tempo, influenciando até hoje o modo de vestir das mulheres (e por que não o modo de ser também?).

A estilista também lia muito, incluindo autores como Nietzsche, além de manter contato com artistas revolucionários da época, como Picasso e Stravinsky. Isso numa época em que existia literatura para mulher e literatura para homem (quando a mulher podia ler e tinha educação).

Outro exemplo  é um ícone pop e também um símbolo sexual que marcou gerações: Madonna. Creio que em termos de revolução, essa cantora proporcionou uma libertação sexual das mulheres no âmbito cultural, fortalecendo movimentos que começaram no final do século XIX e que tiveram seu ápice nos anos 60. Muito da postura da Madonna não é de submissão, mas de enfrentamento de tabus sociais e sexuais.

Quem não lembra do escândalo que foi o vídeo Justify My Love? Da discussão que Papa Don’t Preach iniciou em pleno anos 80? E Like a Virgin? Pessoal pode não levar à sério, mas tem que concordar que cantar sobre aborto e virgindade três década atrás não era fácil.

Isso sem mencionar outras figuras importantes na música, como as bandas feministas, rockeiras etc.

Beleza e imposição de padrões

Muito se fala também entre as feministas sobre o padrão de beleza absurdo que impõe para nossas pobres adolescentes. Que cada vez mais cedo as meninas estão usando maquiagem, pintando as unhas etc. Tenho algumas observações à respeito:

1- Padrão de beleza sempre existiu e foi variando conforme a época e sociedade, mas na nossa você tem a escolha de segui-lo ou não. Como afirma o autor Gilles Lipovetsky, o império não é da moda, mas da efemeridade, ou seja, o padrão não é fixo e é menos impositivo do que supomos. Alguém fora de moda no máximo ouve risadas, mas não é perseguido e executado. Além disso, a maioria das pessoas nem segue a moda, porque ela se tornou no contemporâneo um sistema cada vez mais flexível e fragmentado. Por exemplo, no passado, a moda era vestido com cintura marcada, por exemplo. TODO MUNDO usava isso por uma estação inteira. Hoje em dia isso é muito raro, no máximo observamos esse padrão em pessoas ligadas diretamente ao mundo da moda.


2- Com relação ao padrão de beleza corporal, concordo que é um absurdo todo mundo usar silicones imensos, tomar remédios para emagrecer, fazer mil dietas doidas só para ficar magrinha. Isso não significa que você vai jogar sua saúde no ralo, praticar exercícios e se alimentar bem é importante. Benefícios estéticos são apenas consequências secundárias. Quanto aos silicones, acho bom não colocar por modinha, porque, como disse anteriormente, modas são por natureza efêmeras. Cirurgias são caras e é preciso bom senso para ficar legal. Se mesmo assim você quiser colocar, sem problemas, só aconselho a escolher uma prótese proporcional ao seu tipo físico, além de sempre falar com um médico antes.

3- Sobre meninas usando desde cedo maquiagem, não acho saudável e tenho até medo de meninas metidas à adultas, mães criando monstrinhos-misses etc. Fico horrorizada com aquelas mães do programa Pequenas Misses, que passa num canal de TV fechado. Parece que transformam a filha em bonecas. Teve um episódio que a menina, de uns 3 anos, ouvia uma bronca da mãe porque tava com sono e fome, mas tinha que desfilar.

Cada fase tem suas características e eu acho que a infância é para termos liberdade para brincar, aprender etc. Agora, se a criança por si só já tem vontade de ser uma mini-adulta, acho bom os pais orientarem que com a aparência de um, você também ganha as responsabilidades.

Bom, é isso gente. Espero que meus leitores e leitoras vejam esse texto como um ponto de partida para um debate sobre o assunto. Como eu falei em um post anterior, é preciso que o movimento feminista discuta suas controvérsias e que leve essa discussão para as mulheres. Caso contrário, vai acabar se afastando delas e dando combustível para machista que acha que toda feminista é feia e lésbica. Não que isso seja ruim, é uma escolha de cada um, mas não podemos mais viver de esteriótipos. Pelo bem do movimento.

Beijos de quem é mulher, feminista, lê livros e compra maquiagem.

UPDATE: Li um comentário muito legal no guest post no blog da Lola que deu origem a este post aqui. O texto é de uma mãe que se considera feminista e uma das filhas adolescentes quer ser miss. Confiram:

Yuuko disse…Oi, Lola, Oi mãe preocupada! Leio o blog há tempos mas nunca tinha me encorajado a postar. Tenho 15 anos também, e acho que uma visão de dentro sempre ajuda.

Eu acho irônico que, depois de anos e anos de filhas libertárias teimando com mães conservadoras, temos agora o contrário. Os filhos tendem sempre a se rebelar contra os pais, e talvez essa seja a forma da sua filha de chamar atenção. Sua outra filha, feminista, etc se parece mais com você e logo ganha um posto de “preferida”(mesmo que não o seja. Sei porque cabeça de filho é sempre igual, fica caçando motivos pra ser “inferior” aos irmãos, etc). E ela, como resolveu se adaptar a sociedade pra não sofrer tanto desde pequena, o que não é nada covarde- quando se é pequeno, você é frágil e tudo lhe atinge, e as pessoas lidam diferentemente com isso. Algumas conseguem não ligar, mas a maioria acaba chateada. (Ela tentou se adaptar e se incluir quando trocou as camisetas e tênis por sandálias e muito cor-de-rosa) pode se sentir rejeitada no ambiente familiar e quer se destacar aonde conseguir, aonde abrirem as portas. É um ciclo vicioso, mas começou antes que ela tivesse consciência dos seus atos e agora não vai parar.

Meu conselho é que você não desincentive ela a usar maquiagem, ser “feminina” e “fazer coisas de mulher” (DETESTO esses termos, mas vocês entenderam o que eu quis dizer.) A culpa não é da maquiagem, nem do cor-de-rosa, nem da depilação ou no silicone. É injusto julgar as pessoas por isso. É um contra-preconceito. Eu mesma, uso maquiagem e gosto de rosa, tanto que meu cabelo é dessa cor. E não sou escrava de revistas de beleza e etc, sou feminista e por mais que ainda não tenha opiniões totalmente sólidas e de base firme pela minha pouca idade, luto muito pra conseguir chegar a isso. Esses fatores tão criticados(barbie, moda, cor de rosa, maquiagem, silicone) são apenas as consequencias, e não as causas.O feminismo é o direito da escolha, acima de tudo.

A grande questão é: O que sua filha quer com isso?

Ser magra, ser como as modelos, ganhar concursos de beleza, tudo leva a um mesmo ponto: Atenção. Em algum lugar bem dentro dela ela se sente rejeitada, em casa e agora no mundo exterior.

Não proíba. Proibir atiça, cria vontade, tem todo o sabor do desafio. Incentive ela a fazer o que ela gosta, mas de maneira saudável. Se ela quer emagrecer, procure um endocrinologista e faça uma reeducação, que além de tudo ainda ajuda na saúde e qualidade de vida. Se ela quer se sentir na moda, mostra pra ela os segmentos, tudo que moda engloba (porque moda não é só futilidade, é apresentação, uma das expressões que você tem de sí mesmo que compartilha com o mundo. E eu pretendo trabalhar nesse ramo que ao mesmo tempo que é com razão criticado, é muito vilanizado e “demonizado” sendo que engloba muito mais que modelos na passarela e estilistas famosos supervalorizando o que fazem pra sua marca ser sinônimo de status. Moda tá no dia-a-dia). Feminismo, como disse, é escolha. Uma mulher tem direito de colocar silicone sem ser criticada e chamada de artificial, escrava da moda e tudo o mais. Todos nós queremos ser aceitos, e se o corpo é dela, ela que faça o que bem entender. Você como mãe, enquanto ela é menor, faça e ajude sua filha se sentir bem, se sentir aceita principalmente no ambiente familiar. Nessas circunstâncias,tirá-la da escola é uma boa opção, mas você nunca vai conseguir esconder ela da mídia, então dê apoio e encaminhe ela pros resultados que ela quer de uma forma saudável, mostrando sempre as opções que ela tem. Quando você proíbe uma opção só, ela se torna deliciosa, e ignora-se os pontos ruins dela. Mas quando você mostra todas as opções possíveis, ela pode enxergar o que há de bom e ruim em todas elas, e dá pra avaliar calmamente. O que você não pode fazer é agir como uma ‘conservadora’ só que com opiniões as avessas. Isso beira a hipocrisia e vai de encontro a tudo que você acredita. Boa sorte! 🙂

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Sutis semelhanças #1

O mundo do cinema e cultura e geral sempre nos traz coincidências (será?), sejam elas  visuais ou simplesmente narrativas. Inauguro essa nova tag aqui no JS para mostrar um pouco dessas coincidências  e espero a contribuição de vocês também. O tema dessa primeira publicação é: “Choque de Civilizações”. Se quiser sugerir temas e/ou imagens, mande um e-mail para sanitariojornal@gmail.com 🙂

Choque de civilizações

Presente durante toda a história da humanidade, essa narrativa acentuou-se a partir da “descoberta do Novo Mundo”. Desde aí, vem inundando a cultura pop, discursos ideológicos, ambientalistas e políticos. Fiz, inclusive, um trabalho sobre isso – mas isso não interessa. Selecionei imagens de três filmes que podem representar essa “coincidência” ou uso do mesmo esteriótipo. Confiram:

Vilão Militar


Aparece também em outros filmes, deve ser parte da cultura cinematográfica americana. Escolhi o Coronel Quatrich (Avatar,2009) e o Capitão Rourke (Atlantis, 2001) porque além de serem vilões militares e terem uma trajetória semelhante, são praticamente idênticos fisicamente!

O chefe : sábio e severo


Sempre tem que ter e sempre é o pai da protagonista. Geralmente é uma figura protetora, sábia e severa. Apresenta uma certa aversão  à chegada dos seres da outra civilização. Chefe Powhatan, pai de Pocahontas (Pocahontas,1995) ; Rei de Atlantis, pai da Kida (Atlantis, 2001) e Wes Sudi – esse ao menos tem nome – pai da Neytiri (Atlantis,2009) são exemplos clássicos.

A mocinha nativa

Também temos esses exemplos nos três filmes: Neytiri (Avatar, 2009); Pocahontas (Pocahontas, 1995) e Kida (Atlantis, 2001) . Ambas são filhas do chefe/rei, bonitas, inteligentes e sensuais. São o elo de ligação entre os dois “mundos”, passando para o mocinho – formando o par romântico da trama – o conhecimento da natureza, língua, os valores da tribo etc.

O mocinho aventureiro

É nesse personagem que acontece a grande transição do filme. Aventureiro, com um espírito naturalmente despreocupado, ele parece não levar nada à sério, nem mesmo o discurso inicial de “dominador” que adota. Conforme a narrativa se desenrola e ele vai conhecendo a cultura nativa (por meio da mocinha), a opinião desse personagem vai mudando até o momento que “troca de lado”. Geralmente é no desfecho. E po, como eles são charmosos hein.

Coadjuvante independente

Realmente não sei como classificar esses dois personagens, mas vejo muitas semelhanças entre a Audrey (Atlantis, 2001) e a Trudy (Avatar, 2009). Ambas inicialmente estão do lado do dominador, assim como o mocinho, mas quando ele troca de lado, passam a ajuda-lo, trocando de lado também. A ajuda vem em áreas geralmente dominados por homens (uma é mecânica, a outra sabe pilotar helicópteros etc). E ah, vai, até achei elas parecidas.

Cientista entusiasmado

É aquela figura mega empolgada com a descoberta de uma nova cultura/planeta. Defende a cultura descoberta, mais por ve-la como objeto de estudo do que por identificação. Engraçado que em Atlantis as coisas se misturam: o mocinho é o cientista entusiasmado Milo Tatch. Já em Avatar, temos a figura da Dra. Grace Augustine.

Noivo prometido corno

Kocoum (Pocahontas, 1995) e Tsu Tei (Avatar, 2009)  têm muito em comum: são os melhores guerreiros da tribo, altos, fortes e… são prometidos em casamento para a mocinha, filha do chefe. E, bem… Terminam sós, sendo que o Kocoum teve um final bem mais trágico também.

Guia espiritual feminino

São xamãs ou guias espirituais para a mocinha nativa. Vovó Willow (Pocahontas) pode ser uma árvore, mas as semelhanças entre ela e a mãe de Neytiri, Mo’at (Atlantis), são bem perceptíveis quando analisamos o papel do personagem na história.

Divindade ligada à natureza

Eywa (Avatar), cristal (Atlantis) ou o ventinho da Pocahontas (Pocahontas). Uma espécie de energia sagrada ligada à natureza

E ai, o que acharam? Encontraram mais semelhanças? Tem sugestão de temas?

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Disputa de classes nas redes sociais online : preconceito e ascensão social

Reproduzo abaixo um comentário que fiz no ótimo texto “Orkutização e Preconceito”, publicado no blog do  meu colega Diego Paes. Esse tema gera bastante controvérsia, mas achei importante começar essa discussão também no Jornal Sanitário.

Muito do movimento que gerou o termo “orkutização” é, na verdade, uma reação da classe média brasileira com relação à ascensão social que o Brasil viveu nos últimos anos. Mesma coisa quando reclamam que “popularizou o carro”, por isso o trânsito tá uma merda ou que “popularizou o avião”, por isso o caos aéreo.A culpa não é dessa nova classe média, é da falta de estrutura desses sistemas, já que o governo e algumas empresas não estavam preparados para essa mudança social.

A classe média tradicional, em muitos casos, age de forma egoistamente irracional. Se sente incomodada com coisas que não afetam em nada a vida, como uma empregada doméstica começar a estudar; um negro ter um carro caro; um miserável conseguir se estruturar a partir de programas sociais.

Acho que na internet ainda é mais irracional: não existe bem material na internet. Ninguém perde alguma coisa quando aumenta o número de pessoas de classes menos favorecidas numa rede social online. Pelo contrário: isso quer dizer que os mercados estão se tornando mais diversificados, que essas pessoas estão tendo acesso à comunicação, à cultura e à informação.

Essa reação, típica da classe média estabelecida é preconceito e, pior, hipocrisia. Hipocrisia porque é uma classe que adoraria ascender socialmente e faz isso dos modos mais ridículos possíveis tentando imitar a classe mais rica com suas bilhões de prestações e pacotes turísticos.

Acrescento que já me envolvi com discussões à respeito, principalmente porque não entendia essa história de orkutização. Inicialmente, achei que tinha a ver com a proliferação de spams – motivo pelo qual deixei o Orkut e estou querendo largar o Facebook e Twitter- mas depois soube que o termo se refere ao uso que pessoas de classes menos favorecidas fazem dessas redes sociais.

Acho engraçado esse povo que zoa a favela, a baixada, a periferia. Se já vemos absurdos, não só ortográficos (maioria das pessoas reclama disso), mas também de pensamento pequeno na nossa feliz classe média, imagine se essas pessoas não tivessem acesso à educação, alimentação, cultura e tudo mais como acontece na periferia? O que eu já ouvi de besteira saindo da boca de riquinho não é brincadeira. Merda não escolhe bolso, não.

“Quero que se exploda a periferia toda”?

Ao invés desse pensamento mesquinho, que tal fazer um esforço no sentido contrário? Vamos integrar e respeitar  a cultura da periferia – não de um modo artificial e tosco como alguns antropólogos querem – para transformar a internet num espaço verdadeiramente livre e plural, não em nichos fechados e restritos à classe social. Não é da natureza da Internet dividir as pessoas, encarcera-las em seus bairros, classes sociais ou etnias. Por que ir contra isso?

Por que não posso aceitar uma pessoa pobre no meu perfil do Facebook? Sério que dói? Não seria melhor ver essa pessoa como um possível amigo, como PESSOA MESMO e não como um esteriótipo de classe social?

A periferia é nossa “sombra” social, em termos mais ou menos jungianos. Ou seja, é aquele lado que a sociedade não quer assumir, prefere fingir que não existe ou se fastar agressivamente, como se não fizesse parte dela. Mas a pobreza é uma realidade e, ao invés de fingir que ela não existe, o melhor é tentar incorpora-la ao todo, aceita-la como um lado triste da humanidade, mas que depende de todos nós para mudar.

Não vejo problema algum de que a miséria desapareça ou que a pobreza diminua. Isso não me afeta diretamente, mas sei que vai ter grandes consequências sociais. Todas positivas, mas é preciso preparo das estruturas e sistemas. No caso das redes sociais, só precisamos de bom senso mesmo.

O mundo dá voltas

Uma coisa engraçada é que parece que já o ouvi essa história antes. Por volta do século XIV, na Europa, a burguesia começou a ascender socialmente e a “invadir” espaços antes restritos à nobreza. Os nobres ficaram irritados e foram criando mil regras e procedimentos num esforço de  afastar ao máximo os burgueses. Regras de etiqueta, de linguagem, as roupas mudando o tempo todo, ficando cada vez  mais sofisticadas e complexas para diferenciar as classes. Em contrapartida, burgueses começaram a comprar títulos, criar organizações e formas de representação política que se tornaram o gérmen da democracia moderna. O final da história todo mundo sabe e vejam só quem anda agindo como nobre agora…

#classemediasofre

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Deixem-os relincharem

Texto: Vitor Lillo – Santos – SP

Em São Paulo, cidade onde o número de problemas supera o de habitantes, o grande assunto da semana é uma lei do vereador Carlos Apolinário (DEM) que institui “O Dia do Orgulho Hetero”. É uma resposta não só à Parada do Orgulho Gay – que não possui lei alguma que a ampare – como também, na minha humilde opinião, a todas as iniciativas do poder público que visam garantir os direitos da minoria GLBT. E também a um processo de aceitação dessa minoria que, ainda a passos trôpegos, segue imparável. Ainda bem.

Ouvi todos os argumentos contrários ao projeto. Que é descabida a idéia de se proteger uma pretensa maioria pela força da Lei. Que não há como celebrar o orgulho de uma determinada opção sexual enquanto a outra sofre cotidianamente com o preconceito, a violência gratuita e uma opressão velada de uma sociedade reconhecidamente conservadora.  E, por fim, que esse “Dia” visa dar holofote a determinados grupos que mereciam o ostracismo. Argumentos válidos. De fato, é lamentável um projeto como esse ter passado pelo crivo dos representantes de todos os munícipes (gays ou heterossexuais) e estar prestes a ser sancionado pelo prefeito.

É também deprimente ver um representante do povo tão empenhado em levar adiante uma lei que promove não o progresso, mas, o retrocesso da sociedade. Ocorre que, partindo essa lei de quem parte não me surpreende. Apolinário é o típico representante do eleitorado evangélico que em qualquer município do País, pequeno ou não, tem grande importância. E, para esse grupo, o homossexualiadade é um tabu. É óbvio, portanto, que ele está “jogando pra torcida”. Para o vereador, que tem uma passagem medíocre pela Câmara, aprovada ou não, essa iniciativa o mantém vivo na lembrança dos seus eleitores e forte em seu “curral” eleitoral. É assim que ele se garante no poder.

Por todos estes motivos sou contra a lei que institui “O Dia do Orgulho Hétero”. Mas, pessoalmente, não seria contra uma “Parada” dos orgulhosos heterossexuais, se esta fosse organizada. Ainda que eu prefira passar esse dia num bar com meus amigos gays a ir numa manifestação de rua.

Isso porque – muitos gays, esclarecidos até, não entendem isso – pior é este cenário hipócrita que hoje vigora. No qual todos dizem pela frente que os gays “são cidadãos como quaisquer outros e livres para viver como quiserem”, mas, pelas costas, dizem que “são uns sem-vergonha”. É este mesmo cenário que dá aos imbecis potencialmente perigosos a sensação de que podem dar com uma lâmpada na cabeça de “um bicha” na principal avenida da cidade ou espancar “um viado” até a morte que “não tem problema, todo mundo acha essa coisa de dois homens e duas mulheres se beijando uma nojeira”.

O “politicamente correto” se converte em instrumento para fins incorretos. Pois no afã de se “varrer para debaixo do tapete” um debate franco sobre a homossexualidade, perde-se a oportunidade preciosa de fazer as pessoas pensarem por si próprias, sem a interferência do consciente coletivo. Quando paramos de questionar, a Ignorância impera. E é nela que a mensagem esdrúxula, retrógrada dos “falsos guardiães da moral e dos bons costumes” ganha ressonância e alimenta a loucura dos bárbaros.

Enganam-se aqueles que veem no ostracismo a melhor estratégia para neutralizar os homofóbicos. Porque é na sombra que os skinheads e os fanáticos religiosos se protegem e ganham cada vez mais em força e periculosidade. Aqueles que tanto falam em “nazificação” da sociedade paulistana deveriam, com todo o respeito, estudar mais História. Se o fizessem descobriram que foi justamente durante o ostracismo que o Partido Nazista se estruturou e Adolf Hitler escreveu Mein Kampf.

Somente a exposição dos homofóbicos, bem como de seu “arcabouço ideológico”, fará com que suas teorias caiam por terra. E por um simples motivo: elas são infundadas, absurdas, execráveis. E hoje podemos dizer, ao contrário dos alemães da década de 1930, que vivemos em um mundo interconectado, onde as informações circulam tal como o ar e uma revolução pode ter início num tweet. O mundo não é tão colorido, nem tão acinzentado.

A razão de ser da Democracia está na contraposição de idéias. E é graças a ela que os gays são ouvidos e ganham cada vez mais espaço na sociedade. A própria Parada Gay está aí para provar isso. Aos fanáticos e retrógrados que tentam sabotar o estilo de vida livre, que se responda com mais democracia. Se for para aprisionar os fanáticos e retrógrados, tal como burros num curral, que seja então na sua própria ignorância.  Deixem-nos relincharem!

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Brasil não é um país preconceituoso

E a frase acima é uma das maiores falácias da história brasileira. A ideia de que, diferentemente de outros países, o Brasil não discrimina negros, homossexuais e mulheres acaba reforçando o preconceito e a hipocrisia da sociedade brasileira. E você, qual seu preconceito?

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