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Deixem-os relincharem

Texto: Vitor Lillo – Santos – SP

Em São Paulo, cidade onde o número de problemas supera o de habitantes, o grande assunto da semana é uma lei do vereador Carlos Apolinário (DEM) que institui “O Dia do Orgulho Hetero”. É uma resposta não só à Parada do Orgulho Gay – que não possui lei alguma que a ampare – como também, na minha humilde opinião, a todas as iniciativas do poder público que visam garantir os direitos da minoria GLBT. E também a um processo de aceitação dessa minoria que, ainda a passos trôpegos, segue imparável. Ainda bem.

Ouvi todos os argumentos contrários ao projeto. Que é descabida a idéia de se proteger uma pretensa maioria pela força da Lei. Que não há como celebrar o orgulho de uma determinada opção sexual enquanto a outra sofre cotidianamente com o preconceito, a violência gratuita e uma opressão velada de uma sociedade reconhecidamente conservadora.  E, por fim, que esse “Dia” visa dar holofote a determinados grupos que mereciam o ostracismo. Argumentos válidos. De fato, é lamentável um projeto como esse ter passado pelo crivo dos representantes de todos os munícipes (gays ou heterossexuais) e estar prestes a ser sancionado pelo prefeito.

É também deprimente ver um representante do povo tão empenhado em levar adiante uma lei que promove não o progresso, mas, o retrocesso da sociedade. Ocorre que, partindo essa lei de quem parte não me surpreende. Apolinário é o típico representante do eleitorado evangélico que em qualquer município do País, pequeno ou não, tem grande importância. E, para esse grupo, o homossexualiadade é um tabu. É óbvio, portanto, que ele está “jogando pra torcida”. Para o vereador, que tem uma passagem medíocre pela Câmara, aprovada ou não, essa iniciativa o mantém vivo na lembrança dos seus eleitores e forte em seu “curral” eleitoral. É assim que ele se garante no poder.

Por todos estes motivos sou contra a lei que institui “O Dia do Orgulho Hétero”. Mas, pessoalmente, não seria contra uma “Parada” dos orgulhosos heterossexuais, se esta fosse organizada. Ainda que eu prefira passar esse dia num bar com meus amigos gays a ir numa manifestação de rua.

Isso porque – muitos gays, esclarecidos até, não entendem isso – pior é este cenário hipócrita que hoje vigora. No qual todos dizem pela frente que os gays “são cidadãos como quaisquer outros e livres para viver como quiserem”, mas, pelas costas, dizem que “são uns sem-vergonha”. É este mesmo cenário que dá aos imbecis potencialmente perigosos a sensação de que podem dar com uma lâmpada na cabeça de “um bicha” na principal avenida da cidade ou espancar “um viado” até a morte que “não tem problema, todo mundo acha essa coisa de dois homens e duas mulheres se beijando uma nojeira”.

O “politicamente correto” se converte em instrumento para fins incorretos. Pois no afã de se “varrer para debaixo do tapete” um debate franco sobre a homossexualidade, perde-se a oportunidade preciosa de fazer as pessoas pensarem por si próprias, sem a interferência do consciente coletivo. Quando paramos de questionar, a Ignorância impera. E é nela que a mensagem esdrúxula, retrógrada dos “falsos guardiães da moral e dos bons costumes” ganha ressonância e alimenta a loucura dos bárbaros.

Enganam-se aqueles que veem no ostracismo a melhor estratégia para neutralizar os homofóbicos. Porque é na sombra que os skinheads e os fanáticos religiosos se protegem e ganham cada vez mais em força e periculosidade. Aqueles que tanto falam em “nazificação” da sociedade paulistana deveriam, com todo o respeito, estudar mais História. Se o fizessem descobriram que foi justamente durante o ostracismo que o Partido Nazista se estruturou e Adolf Hitler escreveu Mein Kampf.

Somente a exposição dos homofóbicos, bem como de seu “arcabouço ideológico”, fará com que suas teorias caiam por terra. E por um simples motivo: elas são infundadas, absurdas, execráveis. E hoje podemos dizer, ao contrário dos alemães da década de 1930, que vivemos em um mundo interconectado, onde as informações circulam tal como o ar e uma revolução pode ter início num tweet. O mundo não é tão colorido, nem tão acinzentado.

A razão de ser da Democracia está na contraposição de idéias. E é graças a ela que os gays são ouvidos e ganham cada vez mais espaço na sociedade. A própria Parada Gay está aí para provar isso. Aos fanáticos e retrógrados que tentam sabotar o estilo de vida livre, que se responda com mais democracia. Se for para aprisionar os fanáticos e retrógrados, tal como burros num curral, que seja então na sua própria ignorância.  Deixem-nos relincharem!

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