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Disputa de classes nas redes sociais online : preconceito e ascensão social

Reproduzo abaixo um comentário que fiz no ótimo texto “Orkutização e Preconceito”, publicado no blog do  meu colega Diego Paes. Esse tema gera bastante controvérsia, mas achei importante começar essa discussão também no Jornal Sanitário.

Muito do movimento que gerou o termo “orkutização” é, na verdade, uma reação da classe média brasileira com relação à ascensão social que o Brasil viveu nos últimos anos. Mesma coisa quando reclamam que “popularizou o carro”, por isso o trânsito tá uma merda ou que “popularizou o avião”, por isso o caos aéreo.A culpa não é dessa nova classe média, é da falta de estrutura desses sistemas, já que o governo e algumas empresas não estavam preparados para essa mudança social.

A classe média tradicional, em muitos casos, age de forma egoistamente irracional. Se sente incomodada com coisas que não afetam em nada a vida, como uma empregada doméstica começar a estudar; um negro ter um carro caro; um miserável conseguir se estruturar a partir de programas sociais.

Acho que na internet ainda é mais irracional: não existe bem material na internet. Ninguém perde alguma coisa quando aumenta o número de pessoas de classes menos favorecidas numa rede social online. Pelo contrário: isso quer dizer que os mercados estão se tornando mais diversificados, que essas pessoas estão tendo acesso à comunicação, à cultura e à informação.

Essa reação, típica da classe média estabelecida é preconceito e, pior, hipocrisia. Hipocrisia porque é uma classe que adoraria ascender socialmente e faz isso dos modos mais ridículos possíveis tentando imitar a classe mais rica com suas bilhões de prestações e pacotes turísticos.

Acrescento que já me envolvi com discussões à respeito, principalmente porque não entendia essa história de orkutização. Inicialmente, achei que tinha a ver com a proliferação de spams – motivo pelo qual deixei o Orkut e estou querendo largar o Facebook e Twitter- mas depois soube que o termo se refere ao uso que pessoas de classes menos favorecidas fazem dessas redes sociais.

Acho engraçado esse povo que zoa a favela, a baixada, a periferia. Se já vemos absurdos, não só ortográficos (maioria das pessoas reclama disso), mas também de pensamento pequeno na nossa feliz classe média, imagine se essas pessoas não tivessem acesso à educação, alimentação, cultura e tudo mais como acontece na periferia? O que eu já ouvi de besteira saindo da boca de riquinho não é brincadeira. Merda não escolhe bolso, não.

“Quero que se exploda a periferia toda”?

Ao invés desse pensamento mesquinho, que tal fazer um esforço no sentido contrário? Vamos integrar e respeitar  a cultura da periferia – não de um modo artificial e tosco como alguns antropólogos querem – para transformar a internet num espaço verdadeiramente livre e plural, não em nichos fechados e restritos à classe social. Não é da natureza da Internet dividir as pessoas, encarcera-las em seus bairros, classes sociais ou etnias. Por que ir contra isso?

Por que não posso aceitar uma pessoa pobre no meu perfil do Facebook? Sério que dói? Não seria melhor ver essa pessoa como um possível amigo, como PESSOA MESMO e não como um esteriótipo de classe social?

A periferia é nossa “sombra” social, em termos mais ou menos jungianos. Ou seja, é aquele lado que a sociedade não quer assumir, prefere fingir que não existe ou se fastar agressivamente, como se não fizesse parte dela. Mas a pobreza é uma realidade e, ao invés de fingir que ela não existe, o melhor é tentar incorpora-la ao todo, aceita-la como um lado triste da humanidade, mas que depende de todos nós para mudar.

Não vejo problema algum de que a miséria desapareça ou que a pobreza diminua. Isso não me afeta diretamente, mas sei que vai ter grandes consequências sociais. Todas positivas, mas é preciso preparo das estruturas e sistemas. No caso das redes sociais, só precisamos de bom senso mesmo.

O mundo dá voltas

Uma coisa engraçada é que parece que já o ouvi essa história antes. Por volta do século XIV, na Europa, a burguesia começou a ascender socialmente e a “invadir” espaços antes restritos à nobreza. Os nobres ficaram irritados e foram criando mil regras e procedimentos num esforço de  afastar ao máximo os burgueses. Regras de etiqueta, de linguagem, as roupas mudando o tempo todo, ficando cada vez  mais sofisticadas e complexas para diferenciar as classes. Em contrapartida, burgueses começaram a comprar títulos, criar organizações e formas de representação política que se tornaram o gérmen da democracia moderna. O final da história todo mundo sabe e vejam só quem anda agindo como nobre agora…

#classemediasofre

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A (in)justiça nas pequenas coisas.

Muitas das vezes, as pessoas apenas reparam nas injustiças divulgadas pela midía.São os salários baixos, o preconceito declarado e por ai vai.Com isso, os olhares sempre se esquecem das pequenas, mas não menos importantes, injustiças cometidas dia-a-dia.

animais_luxo

Um exemplo que eu andei reparando parece insignificante, mas revela a falta de empatia e até, de certa forma, uma ignorância.A grande maioria dos apartamentos-classe-média construídos na cidade de Belém e que possuem os chamados “banheiro para os empregados” não colocam chuveirinhos,duchinhas ou bidês.Alguém pensaria : “E que isso importa?É caro para a empresa fazer isso”.Bom, as empresas construtoras compram tudo das fábricas e, portanto, o custo é muito menor.Para instalar um desses, gasta-se no máximo 10 reais.Então, por que não colocar?

a. As construtoras não atentam para esse fato.

b. Aquela mentalidade de que “pobre” e “empregado” não precisa desse tipo de “luxo”.

c.As construtoras querem economizar cada centavo( se bem que, para fazer jardins, piscinas, churrasqueiras, ninguém economiza).

Talvez seja um desses fatores, ou a possível combinação entre eles.De qualquer forma, revela um enorme preconceito por parte das construtoras, mas esse problema não para por aí.

Tempos atrás, em uma discussão durante uma reunião de condominios do meu prédio, uma mulher reclamou:

– Escuta aqui, por que meu cachorro não pode andar no elevador social?Ontem eu vi um entregador de gás todo fedorento andando nele!

Por incrível que pareça, a mulher foi capaz de olhar para outros seres humanos como se fossem animais, aliás, pior do que animais.

Outro caso, recente, foi um relato de uma colega do meu curso na Universidade.Ela, além desse curso, conseguiu uma bolsa do ProUni numa das mais caras Universidades particulares de Belém.Ela explicou que a vaga estava quatro anos parada, pois ninguém conseguia a pontuação suficiente.Conseguindo, com muito esforço, de acordo com ela, pois só tinha lápis e papel no cursinho que ganhou bolsa, ela teve uma surpresa ao chegar na sala de aula.Todos os alunos já estavam reunidos em grupos para a execução de um trabalho:

– Gente, quem quer nossa colega no grupo?- perguntou a professora.

O silêncio é seguido por uma tensão no ar, e a pergunta é repetida cerca três vezes.A moça, então, reage:

-Não, professora.Pode deixar, eu faço o trabalho sozinha!

A professora insiste e alega que como alunos do curso de psicologia, eles não deveriam ser egoístas.Assim, um aluno timidamente aceita a moça no grupo.

A questão até aqui seria simples.No entanto, os alunos começam a conversar sobre cotistas e bolsistas, sabendo que a moça entrou através do segundo.Assim, um dos alunos solta:

– Meus pais pagam $$$, para vir um preto pobre e burro, sem senso crítico ficar estudando com meu dinheiro!

Os comentários seguem a mesma linha da blasfêmia acima.Agredida, a moça tenta revidar:

– Olha, eu sou pobre mesmo e não tenho vergonha disso.Eu fui a única que, em quatro anos, conseguiu a pontuação para conseguir essa bolsa.Não foi fazendo um prova boba e fácil, como você pensa.Outra coisa, você não paga meus estudos.O governo federal tira parte dos impostos da U*, então seu dinheiro é investido nos seus estudos, tudo depende de você.Não concordo com sua visão de que pobre,negro não tenha senso crítico.Nós podemos não ter acesso a toda educação do mundo, mas sabemos perceber tudo que nos cerca.

Não citei o nome dela, nem da universidade por questões éticas.Os diálogos acima não estão exatamente como foi colocado, porque foi baseado no relato dela.

Assim, percebemos que a violência não está só nos jornais.Ela está no nosso cotidiano.Atentem agora, queridos leitores, àqueles olhares de discriminação.Atentem para o livro da vida e procurem sempre ler nas entrelinhas.

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