A (não)Hora das Bruxas

Capa do livro A Hora das BruxasVerrugas nojentas no nariz, corcundas, mantos esfarrapados negros ou roxos, uma sorte de ingredientes dos mais esquisitos, como asas de morcego, rabo de sapo, olho de rato, perna de barata e as maldições para transformar pessoas em animais, comer criançinhas e prender vidas. Provavelmente essa é a imagem que vem à cabeça da maioria das pessoas quando pensam em bruxas.

Anne Rice, a principal referência do estilo gótico na literatura, tentou quebrar esse paradigma com o lançamento dos volumes I e II de A Hora das Bruxas: As Bruxas Mayfair e talvez esse tenha sido seu maior erro.

A Hora das Bruxas conta a saga de uma família de “bruxas” através de quatro séculos, a partir de documentos arquivados por uma organização de pessoas com poderes psíquicos, que estudam as ocorrências de atividades paranormais também através dos séculos, chamada Talamasca.

Suzanne foi a primeira das bruxas Mayfair, uma curandeira e parteira que aprendeu os saberes ocultos da demonologia com um padre que viajava pela Europa caçando bruxas. Suzanne e sua filha Deborah conjuraram um espírito, o qual nomearam Lasher, que iria passar de filha a filha da família ao longo de várias gerações.

O espírito Lasher era devotado às sua senhoras e fazia tudo que elas pediam, desde lhes trazer dinheiro ou jóias até criar tempestades e atormentar a vida de seus inimigos. Lasher se alimentava da energia das bruxas escolhidas da família e também tinha a capacidade de aprender, o que era considerado uma grande surpresa já que espíritos costumeiramente não têm esse poder.

Vale ressaltar que a vida da maioria das mulheres que tiveram o poder de controlar o espírito não terminou bem. Suzanne e Deborah foram queimadas na fogueira pela santa inquisição. Stella foi assassinada pelo próprio irmão. Antha se jogou de janela do segundo andar de sua casa. Deidre morreu enlouquecida após terem levado sua filha Rowan, personagem que dá o gancho central da história já que é a herdeira do legado Mayfair (Lasher e mais uma fortuna), além de ser a bruxa mais poderosa da linhagem e sem saber de nada.

O primeiro volume de A Hora das Bruxas é dividido em duas partes: Reunidos e As Bruxas Mayfair. A primeira parte é a pior de todas. Nela Anne narra a história de vários personagens que estiveram envolvidos de alguma maneira com a história das bruxas. Um dos médicos que cuidou da alienada Deidre é o personagem do primeiro capítulo. Em seguida vem as histórias de Michael, um ex-morador de Nova Orleans (onde se passa a história) que ganha poderes extra sensoriais após uma experiência de quase morte; o padre Mattingly, que participou de momentos cruciais na vida de Deidre; Rita Mae, amiga de escola de Deidre Mayfair; e por último Rowan Mayfair, filha separada de Deidre ao nascer e que herda todos os bens da família mas nada sabe sobre o passado das Mayfair.

Anne Rice continua escrevendo tão bem quanto em As Crônicas Vampirescas, seu principal sucesso. O problema da primeira parte de A Hora das Bruxas é que a autora gasta muitas páginas descrevendo aspectos da vida de alguns personagens que aparentemente não fazem muita diferença na história (pelo menos não no primeiro livro). É quase uma perda de foco.

O clímax da história, ou seja, os momentos em que Michael conhece Rowan e que vai para Nova Orleans, onde lê os arquivos sobre as Mayfair, acontece apenas depois de 200 páginas, o que é um grande desafio para muitas pessoas que não conhecem a obra da autora, principalmente considerando os aspectos editorias da edição brasileira do livro, que utiliza uma fonte muito pequena para as letras.

Após vencer os obstáculos da primeira parte, os leitores chegam ao que realmente interessa: os Arquivos Sobre as Bruxas Mayfair. Essa parte é realmente boa e apresenta uma narrativa envolvente em formato de cartas (escritas por Petyr van Abel, o primeiro a pesquisar a história das bruxas) e documentos posteriores escritos com base em extensas investigações sobre a família.

Mesmo então, o que mais se espera de um livro sobre Bruxas, as bruxarias, não acontecem. É nessa parte que descobrimos que o verdadeiro poder das bruxas é controlar o espírito Lasher, que possui o dom de fazer coisas acontecerem. Até mesmo o espírito, entretanto, fica esquecido na história, sendo mencionado esporadicamente ao longo dos arquivos.

Anne Rice deixa implícito, isso é fato, que a maioria das conquistas da família só foi possível graças ao poder de Lasher, mas o que pelo menos eu queria (e mais alguns amigos a quem perguntei) era ler bruxaria de verdade e não apenas chuvas torrenciais que caem na hora da morte das bruxas escolhidas.

Ao terminar de ler o livro a pergunta que veio à cabeça foi: Porque será que ela escolheu esse nome? Bem, em algum momento da história a autora responde. É porque, para o Talamasca, bruxos são todos aqueles que conseguem comandar forças invisíveis. Well, well… Não!

Quero deixar bem claro, no fim das contas, que levando em consideração o fato de gostar muito da autora e de não ter lido o segundo volume (que pode levar a história a algum ponto interessante) eu não vou indicar ou dês – indicar (acho que isso é um neologismo) o livro. Mais do que nunca eu digo, leiam e tirem suas próprias conclusões.

Texto: Dilermando G.

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